Vídeos interessantes para pesquisa funk

NEGRIARA
































MC _ BIANA - FUNK MAIS PESADO !!!! (PROIBIDO PARA MENORES DE 18 ANOS)











FUNK CONSCIENTE - Recalcadas !!!






AS PATROAS ! E OS PATRÕES !


 

















Musical conta história de 4 décadas do funk no Brasil

NEGRIARA

                                          SÃO 40 HITS'

Lista vai de James Brown ao MC Koringa, s

Dia em que Claudinho e Buchecha gravaram de cueca vira cena na peça.


Autor Pedro Monteiro (de fone) e os outros atores do espetáculo 'Funk Brasil' (Foto: Divulgação / Andrea Rocha / ZBR)Autor Pedro Monteiro (de fone) e os outros atores da peça 'Funk Brasil'
No meio da década de 1990, a dupla emergente no cenário funk carioca Claudinho e Buchecha chegou para gravar pela primeira vez com o já popular DJ Marlboro. Vestidos com jaquetas, correntes e outros acessórios, causaram ruídos no som ao dançarem no estúdio. Como solução, veio o ordem inusitada do anfitrião — quase um trote nos “calouros”: teriam que continuar a gravação só de cueca. "Marlboro é um sacana. Ainda ficou ameaçando que ia mostrar as fotos para todo mundo", lembra Buchecha, aos risos.
A história, confirmada com orgulho pelo DJ, é uma das muitas que conduzem o musical “Funk Brasil – 40 anos de baile”, que estreia nesta quinta-feira (9) no Teatro Miguel Falabella, na Zona Norte do Rio de Janeiro. De forma cronológica e ao som de 64 hits, o espetáculo coescrito por Pedro Monteiro — que também atua — e João Bernardo Caldeira, com direção de Joana Lebreiro, narra a trajetória do ritmo a partir dos Bailes da Pesada de Big Boy e Ademir no Canecão, no início da década de 1970, com base no livro "Batidão — Uma história do funk", de Silvio Essinger.
"Vou me emocionar bastante [com a peça] porque que vou ver minha história. Estou com 20 anos de funk, metade disso aí eu faço parte", comenta Buchecha, que era pagodeiro e foi convencido pelo parceiro Claudinho (1975-2002) a fazer funk e participar do Festival de Galeras no Clube Mauá de São Gonçalo, no início dos anos 1990 — ficaram em terceiro lugar com "Rap da bandeira branca" em 1993 e venceram com "Rap do Salgueiro", dois anos depois.
A dupla é representativa da década que consolidou o funk carioca, em movimento iniciado a partir do lançamento do CD "Funk Brasil", do DJ Marlboro, em 1989. "Sinto orgulho de ver que a galera não está deixando a peteca cair. Acho que o funk já fincou as bases e está muito bem quisto. Não ficou estagnado como um ritmo só para suburbano", acrescenta Buchecha.
De fato, o estilo que nasceu nas favelas, dando voz às comunidades, conquistou fãs em todas as classes e venceu o preconceito. Antes restritos aos bailes e às vezes vinculados ao tráfico, hoje os hits fazem parte até de trilha sonora de novela, caso de "Pra me provocar", do MC Koringa, tema da "piriguete" Suelen, personagem de Ísis Valverde em "Avenida Brasil".
"Foi através do funk que eu conheci a favela pela primeira vez. Tinha 15 anos, por volta de 1992. Foi o momento em que estourou o 'alô Pirão, alô alô Boavistão'", lembra Pedro Monteiro, em referência ao "Rap do Pirão", do MC D'Eddy.
Pedro, que já rodou o país com a peça "Os ruivos" e fez sucesso em um comercial de cerveja no qual contracena com Beto Barbosa vestido com um blazer e uma pochete, ao som de "Adocica", teve a ideia de realizar o espetáculo em 2007, ao assistir a performance na Estação Leopoldina, na Zona Norte do Rio.
"Fiquei olhando para aquilo e vi que não tinha nada a ver com quem frequentava o vagão do trem. Queria fazer alguma coisa para aquelas pessoas. Aí veio a luz de contar a história do funk", explica. "É como se fosse em um baile mesmo, ninguém sai de cena."
"Funk Brasil - 40 anos de baile" fica em cartaz até 30 de setembro, de quinta a domingo, às 18h. Os ingressos custam R$ 30. Além de Pedro, estão no elenco Alex Gomes, Cintia Rosa, Dérik Machado, Julia Gorman e Marcelo Cavalcanti.
Com base no livro de Silvio Essinger, no espetáculo e em entrevistas com nomes representativos de cada uma das quatro décadas do funk no Brasil, o G1 listou 40 hits para relembrar essa história.
Funk 1970 (Foto: Editoria de Arte/G1)
Newton Duarte, o Big Boy, e Ademir Lemos: os criadores do Baile da Pesada (Foto: Reprodução) 
Newton Duarte, o Big Boy, e Ademir Lemos: os
criadores do Baile da Pesada (Foto: Reprodução)
1. "Sex machine" - James Brown
"Essa música é a mais famosa de todo o movimento, a que mais emplacou. Aqui no Brasil ela chegou bem na época dos bailes, era a música do momento. Tocou em rádio, ultrapassou os limites da black music para se tornar uma música pop", explica Leandro Petersen, filho do Big Boy, um dos responsáveis pela pesquisa musical da peça e produtor da festa Soul, Baby, Soul. "As pessoas têm mania de falar que o funk tem conotação sexual e costumo citar essa música como exemplo que é uma questão muito mais de movimento. Também tinha uma coisa de mau gosto para a sociedade. É mais ou menos a mesma coisa que falar ' ficando atoladinha' hoje. Só evoluiu dentro do mundo. Faz parte da questão do funk mesmo, do pobre, do excluído, que fala de conotação sexual, de violência. E esse é o primeiro funk de referência, que marcou uma geração", acrescenta o herdeiro do Big Boy.
2. "Mandamentos black" - Gerson King Combo
3. "Think (About it)" - Lynn Collins
4. "Podes crer, amizade" - Tony Tornado
5. "Do they funky chicken" - Rufus Thomas
6. "Thank falettinme be mice elf again" - Sly and the Family Stone
7. "(I got) So much trouble in my mind" - Sir Joe Quarterman and Freesoul –
8. "Givin up food for funk" - The JBs
9. “Soul power 74” - James Brown (feat. Maceo Parker)
10. "People get up and drive your funky soul" - James Brown
Funk 1980 (Foto: Editoria de Arte/G1)
Capa do disco 'Funk Brasil', o primeiro da série do DJ Marlboro (Foto: Divulgação) 
Capa do disco 'Funk Brasil', o primeiro da série do
DJ Marlboro (Foto: Divulgação)
11. "Melô da mulher feia" - Abdulah
"É importante porque foi a primeira do funk nacional. Foi a partir dela que nasceu o movimento no Rio. Foi a primeira em português, cantada pelo Abdulah [em uma versão a partir de 'Do wah diddy', da 2 Live Crew, também na lista abaixo]. Foi a partir dali que tudo começou", explica o DJ Marlboro, que incluiu a faixa no primeimro  "Funk Brasil", de 1989, que abriu as portas para a explosão do funk na década de 1990.
12.  "Planet Rock" - Afrika Bombaataa
13. "Do wah diddy" - Live 2 Crew
14. "Supersonic" - JJ Fad
15. "Freakazoid"  - Midnight Star
16. "Get down on it" - Kool and the Gang
17. "Don't stop the rock" - Freestyle
18. "Olhos coloridos" - Sandra de Sá
19. "Spring love" - Stevie B
20. "They're playing our song" - Trinere
Funk 1990 (Foto: Editoria de Arte/G1)
Claudinho e Buchecha gravaram primeiro CD em 1996 (Foto: Divulgação) 
Claudinho e Buchecha gravaram primeiro CD em
1996 (Foto: Divulgação)
21. "Rap da felicidade" - Cidinho e Doca
O famoso refrão "Eu só quero é ser feliz / Andar tranquilamente na favela onde eu nasci" ecoou com força em uma época marcada pelo comando do tráfico nas comunidades do Rio. "Acho que essa frase resume tudo", diz Buchecha, criado em uma favela de São Gonçalo, na Região Metropolitana da cidade. "É um hino. Todos cantavam essa música. É o grito do povo. É o que todo nós vivemos", acrescenta.
22. "Rap do Borel" - William e Duda
23. "Rap do Salgueiro" - Claudinho e Buchecha
24. "Nosso sonho" - Claudinho e Buchecha
25. "Rap da diferença" - MC Dollores e MC Marquinhos
26. "Rap do solitário" - MC Marcinho
27. "Rap do Silva" - MC Bob Rum
28. "A distância" - Márcio e Goró
29. "Rap do Pirão" - MC D'Eddy
30. "Me leva" - Latino
Funk 2000 (Foto: Editoria de Arte/G1)
Tati Quebra-Barraco: letras de sexo sem rodeios  (Foto: Divulgação) 
Tati Quebra-Barraco: letras de sexo sem rodeios
(Foto: Divulgação)
31. "Baile da Pesada" - Fernanda Abreu
A música que resume a história do movimento funk no Rio foi lançada pela cantora em 2000, no álbum "Entidade urbana". "É a que descreve melhor os bailes destes 40 anos de funk e soul", opina Mario Henrique, o DJ Peixinho, que acompanhou todo o processo de evolução do ritmo no país — é, inclusive, um dos personagens da peça — e até hoje ainda toca em festas como a Soul, Baby, Soul.
32. "Se ela dança, eu danço (Ela só pensa em beijar)" – Mc Leozinho
33. "Cerol na mão" - Bonde do Tigrão
34. "Adultério" - Mr. Catra
35. "Glamurosa" (1992) - Cidinho e Doca
36. "Boladona" - Tati Quebra Barraco
37. "Créu" - MC Créu
38. "Tremendo vacilão" - Perla
39. "Chantilly" - Naldo
40. "Pra me provocar" - MC Koringa

O famigerado funk carioca em livro sem preconceito (...)

NEGRIARA

Entrevista com Silvio Essinger, autor do livro Batidão - Uma História do Funk (editora Record, 2005)
 
Felipe Tadeu - Na orelha do teu livro está escrito "antes de mais nada, um livro para quem não gosta de funk". Apesar da crescente popularização do gênero, o funk carioca ainda é tabu?

Silvio Essinger- Claro, muita gente ainda acha que é música de baixa qualidade, de bandido, música tosca. Apesar de ser uma manifestação cultural legítima, - e é música brasileira -, ainda enfrenta uma série de preconceitos. Ainda mais porque não é música muito veiculada pelas grandes gravadoras, que só chega a ser aceita por elas quando está estourada nacionalmente. Quando um grupo como o Bonde do Tigrão chega à Sony, é só a ponta do iceberg, porque há muito mais gente embaixo.

FT- Como foi que você começou a gostar de funk carioca? Qual foi o primeiro disco do gênero que você comprou e quando isso aconteceu?

SE- O primeiro disco que eu tive não foi comprado, eu ganhei em 1994 quando trabalhava na Tribuna da Imprensa (jornal do Rio de Janeiro). Eu recebi o disco Funk Brasil, do DJ Marlboro, e naquela época eu já tinha uma certa simpatia pelo funk, mas ainda não o levava a sério. Nesse cd tinha uma música muito boa, o Rap do Surfista, do Geração, um grupo que não existe mais e do qual dois integrantes dele viraram PM (guardas da Polícia Militar). Aliás, esse tipo de história é muito comum no funk. Quando um grupo não dá certo, um cara vira crente, o outro PM, ou então é um integrante que entra para o tráfico de drogas. Como o funk não é uma opção profissional muito segura, há sempre histórias tocadas pela tragédia, como foi o caso da dupla Márcio e Goró, que conseguiu até uma certa notoriedade. Quando o negócio deles despencou, o Goró se matou (com um tiro no ouvido, na frente do pai). Mas voltando ao disco do Marlboro, tinha lá uma música do Geração que fazia um paralelo entre o surfista da Zona Sul (parte mais rica da cidade do Rio), que era queimado de praia, com o surfista ferroviário da Zona Norte, que era queimado por causa de um fio de alta tensão (no Rio de Janeiro, muitos jovens das áreas mais pobres costumam praticar o hábito de viajar em cima do teto dos trens elétricos para não pagar passagem e se arriscar numa aventura, numa trágica versão dos chamados esportes radicais). Enquanto o surfista rico come mamão no café da manhã, o outro, quando muito, toma café com pão. A partir dessas comparações, eu fiquei atento naquilo ali. O funk carioca não era aquele macaqueamento do som de Miles Davis como eu imaginava, tinha uma coisa original nele. No ano seguinte, em 95, veio forte o funk Rap da Felicidade, de Cidinho e Doca, que virou uma espécie de hino do Rio de Janeiro. Depois, mais tarde, eu comecei a comprar discos em bancas de jornal, porque você não os encontrava nas lojas normais, só nas bancas, ou no camelódromo (área ocupada por vendedores ambulantes de mercadorias a preços mais acessíveis). Aos poucos eu fui fazendo minha coleçãozinha.

FT- E qual foi o primeiro cd?

SE- Acho que foi um da equipe Furacão 2000, ou da Pipo's, lá por volta de 1997 ou 98. E a primeira vez que fui a um baile funk foi depois de'u ter assinado o contrato para escrever o livro, em 98.

FT- Um dos capítulos mais interessantes do teu livro é o que trata do surgimento do movimento Black Rio na década de 70. Você que cresceu na Zona Norte do Rio, que lembranças guarda desse tempo? Você tinha algum ídolo musical negro, sendo um guri branco de classe média?

SE- Eu não tinha muita percepção dessa época não (Silvio nasceu em 1970). Eu lembro muito das faixas que chamavam para os bailes, aquelas em que vinha escrito "Damas grátis". Mais tarde é que vim conhecer o Gerson King Combo (espécie de James Brown brasileiro). Mas o que ficou mais em mim foi aquela atmosfera dos bailes, apesar de não ter ido a nenhum deles. Eu morava perto do Melo Tênis Clube, na Vila da Penha, onde havia algumas festas, mas a música mesmo não me marcava não. Os nomes é que eram fortes, como Gerson King Combo, a equipe Cashbox. As lembranças mais remotas que eu tenho da música funk é de quando eu já estava na Zona Sul, e assistia na televisão o Som na Caixa, que era o "programa oficial das equipes de som do Rio de Janeiro".

FT- E Tony Tornado, um dos pioneiros da cena black local?

SE- Eu só o conheci quando ele se tornou ator. Eu só soube que ele já tinha sido músico quando li que ele caiu do palco em cima de um espectador, que ficou paraplégico. Bem depois é que descobri que ele era uma força da black music no Brasil. Eu tentei entrevistá-lo para o livro, mas não tive resposta dele.

FT- O disco de Gerson King Combo é realmente muito bom.

SE- É! É black music made in Brazil muito bem feita. Voltando às faixas que chamavam para os bailes, elas ainda são muito eficientes até hoje, porque a divulgação dos bailes funk nunca saem nos jornais. Eu fico sabendo deles quando passo perto da subida do Morro Dona Marta (no bairro de Botafogo, Zona Sul do Rio), ou pela boca da Rocinha (maior favela da América Latina, com cerca de 300 mil habitantes), ou perto da Cidade de Deus (Zona Oeste). Inclusive eu fiz esse circuito do funk todo de ônibus, de carona, ou de van (carros maiores, que transportam passageiros para áreas menos servidas por ônibus). O livro serviu também para que eu conhecesse melhor a cidade do Rio.

FT- O samba e o funk carioca são grande ícones da cultura negra das urbes brasileiras. Você concorda que os apelos do funk junto às novas gerações sejam mais irresistíveis pelo fato dele estar mais associado às inovações tecnológicas?

SE- Sim, e também pelo fato de não ter nenhuma tradição a defender. O funk carioca só tem quinze anos de história, e mesmo que hoje já se fale numa "velha guarda do funk", quem são esses veteranos? São caras que, às vezes, não têm nem 30 anos de idade. Por não ter tradição a defender, isso deixa a música livre, cada um faz o que quer dela. Você tanto pode falar sobre o celular, sobre a marquinha do biquini, sobre a Solange do Big Brother Brasil, dela cantando We Are The World com o inglês todo errado e transformar isso num novo funk. Você pode fazer também um funk sobre as armas, ou um funk gospell. Há todo um campo livre para a inovação.

FT- O que impressiona também no funk é do palco estar aberto para o espectador do baile que queira subir e cantar alguma coisa. Se ele tiver sorte, semanas depois já está sendo cantado por todo mundo.

SE- Na cena musical tradicional não acontece de aparecer tantos artistas e tão rapidamente como no funk. Por exemplo, eu entreguei o livro à editora em outubro do ano passado e, até ele ficar pronto, aconteceu tanta coisa no funk que já dava até apara fazer outro capítulo. Hoje a sensação do momento é um MC (mestre-de-cerimônia) de Madureira chamado Colibri, que é ex-sambista.

FT- A perseguição aos bailes funk são um sinal da intolerância da sociedade brasileira para com esta forma de lazer e manifestação cultural das populações mais pobres. Você sabe de alguém do universo do funk carioca que tenha processado a mídia ou alguém do poder público por discriminação racial?

SE- Não. Embora haja gente como o DJ Marlboro ou o DJ Catra que são de gritar, eu acho que a perseguição não é racial. É contra o pobre em geral, é um problema de classe social, porque no funk tem de tudo. Há uma maioria de negros na cena, mas também muitos brancos, nordestinos. O funk é uma prova de nossa diversidade racial, inclusive ele é o tipo de música que melhor discute identidade sexual. Você vê os homens fazendo suas bravatas machistas, as mulheres respondendo e os gays entrando junto também, com nomes como Lacraia e Garota X. O problema de discriminação contra o funk é porque ele chegou numa época em que os bailes tinham virado campos de guerra, com os chamados "baile de corredor". O governo e a lei agiram de forma a acabar com os campos de batalha e não como discriminação contra ele. Era uma degradação das festas, em que já estava morrendo gente e alguma coisa precisava ser feita. A partir disso, o funk voltou a procurar refúgio nas favelas, que é onde ele voltou a prosperar.

FT- Você passou por alguma situação delicada com alguém do tráfico durante as pesquisas para o livro?

SE- Não. Eu chegava nos morros, via o pessoal armado, os traficantes, mas nada que impedisse o meu trabalho. Eu estava lá para falar de funk e subia com os próprios MC's para entrevistá-los. Era muito óbvio que eu não era morador do morro, sendo que até algumas vezes eu subia com um gringo junto (risos).

FT- Você cita Fernanda Abreu como embaixadora do funk carioca. Ela é realmente considerada "de casa" quando sobe ao palco de um legítimo baile funk nos subúrbios do Rio?

SE- Eu nunca a vi no palco de um baile, mas ela tem muito boas relações com o DJ Marlboro e é uma figura muito popular no Rio de Janeiro todo. Ela não é considerada funkeira, mas é vista como "garota sangue bom". Ela jamais vai tirar uma onda de que é do morro. Ela cantou funks no festival Rock in Rio e no primeiro disco dela, de 1990, Marlboro está lá. Não tem como negar que ela é uma embaixadora do funk carioca. Talvez ela nem se desse bem sobre o palco num baile funk, mas de qualquer forma ela é a garota que leva as coisas para a Zona Sul.

FT- Qual é o melhor letrista do funk carioca?

SE- É o Catra.

FT- E o melhor arranjador e o melhor cantor?

SE- Em noção de arranjos, nós teríamos que ver quem é o melhor programador. Hoje em dia você pode falar de um coletivo do funk. As coisas mais interessantes do funk carioca são feitas hoje coletivamente. Quanto ao melhor cantor, acho que é a Dayse da Injeção. Ela também é nova por sinal e não chegou a entrar no livro, e é um novo talento da Cidade de Deus. Aliás, ela não é tão nova assim porque começou com a Tati Quebra-Barraco, mas só agora que está despontando. Ela canta bem, uma exceção no mundo dos MC's, onde se ganha no grito.

FT- Você vê alguma semelhança entre o funk e a axé music?

SE- Muito do elemento erótico, pornográfico do funk vem da axé music. O funk consegue mimetizar muito os outros estilos, se aproximando muito deles.

FT- Antes de escrever Batidão - Uma História do Funk você tinha publicado um livro sobre punk (Punk - Anarquia Planetária e a Cena Brasileira), da Editora 34. O que o funk e o punk teriam em comum?

SE- A idéia do "faça você mesmo". O momento inicial do punk é "vamos abolir as regras", e o funk carioca também não está nem aí para elas.

FT- E a penetração do funk junto às comunidades do Capão Redondo, em São Paulo, de onde saiu o grupo Racionais, banda que canta textos ultra-pesados sobre a hecatombe social brasileira?


SE- Eu nem sei se o pessoal ouve funk no Capão Redondo, mas os caras dos Racionais ouvem. Tenho um amigo que já viajou no ônibus deles e eles estavam lá, escutando funk carioca. Por mais sisudos que eles sejam, eles têm que ter um momento de descontração na vida deles.

FT- Se formos comparar o chamado "funk consciente" com as letras dos Racionais, o que os funkeiros escrevem parece talquinho Johnson, não acha?

SE- O rap dos Racionais é tipo filme de terror. Os caras parecem que se esforçam para ver quem consegue botar as histórias mais tenebrosas que existem na música. Eles são a fratura social irreparável, estão no meio de uma guerra. Para eles, não vai ter paz nesse mundo e São Paulo jamais vai se reconciliar com a sua periferia. Já o "funk consciente" não, ele traz uma pitada de esperança de que as coisas vão mudar. Os quatrocentos quilômetros entre as duas cidades, Rio e São Paulo, e as singularidades de cada uma delas geraram essas visões distintas.
Felipe Tadeu
Brasilkult@aol.com

HISTÓRICO DO CONJUNTO MORRO ALTO

NEGRIARA


A
ção da FAMEMG impede despejo de 1000 famílias em Vespasiano-RMBH
Conheça a Historia de Luta dos Moradores dos Conjuntos Morro alto e caieiras
 
Histórico:
Na década de 80 a COHAB deu inicio a construção de um empreendimento imobiliário, de 1230 Unidades Habitacionais, destinadas a famílias de baixa renda, localizado na cidade de Vespasiano-RMBH utilizando para a construção recursos do BNH e do Fundo Estadual de Habitação.
Neste mesmo período a cidade de Belo Horizonte passava por um dilema, o que fazer com a população que estava no caminho do crescimento da cidade e com os desabrigados?
Existiam projetos de desenvolvimento a serem implantados. A aberturas da Av dos Andradas interrompida pela favela do Perrela e as vitimas das chuvas, inúmeras famílias oriundas principalmente das favelas dos Gorduras da barraginha.
A Prefeitura então realizou uma parceria com o Estado para reassentar estas famílias tendo como objeto as casas construídas em Vespasiano pertencentes a COHAB.
As famílias não tiveram escolha, foram removidas em alguns casos como o dos moradores da favela do Perrela foram retirados a força de suas moradias, que foram imediatamente demolidas, colocados em caminhões e levados para o Conjunto Morro Alto e Caieiras, sem receberem as indenizações devidas.
Já em Vespasiano estas mesmas famílias viveram o horror da falta de infra estrutura dos conjuntos citados e do completo e absoluto abandono do poder publico que: não garantiu a eles o acompanhamento social necessário para vencer as dificuldades. Muitos não tiveram condições de permanecer, pois trabalhavam em Belo Horizonte, muitas mulheres, chefes de família que tinham conseguido constituído rede de solidariedade nos comércios locais, em que se comprava fiado garantindo a sobrevivência quando não se tem emprego fixo, e com a vizinhança quando não existem creches publicas, escolas linha de ônibus e todos os outros serviços básicos necessários a sobrevivência humana.

Após chegarem e serem estalados cada um em sua nova moradia pela Prefeitura de BH, as famílias foram procuradas pela COHAB, que apresentou a cada uma delas um contrato de compra e venda dos imóveis.

Este contrato estipulado em 344 meses para pagamento determina que: o não pagamento de três prestações implicava em devolução dos imóveis.
É bom que se diga que estas famílias não tiveram o direito às informações com antecedência sobre os contratos, e que pela época da realização dos despejos ajuizados pelo poder publico era e ainda é alto o índice de analfabetos entre populações de baixa renda.
Um outro fator relevante que deve ser avençado é que: em épocas de eleição figuras políticas de peso em nosso estado incluindo presidentes da COHAB fizeram reuniões com os moradores onde foram orientados a não pagar as prestações pois os imóveis seriam doados pelo Governador do Estado.

Ignorando todos estes determinantes sociais importantes para se definir um empreendimento realizado com recursos públicos destinados exclusivamente para a eliminação de favelas e aglomerados em condições sub-humanas de habitação e a famílias sem moradia e de baixa renda, no ano de 2004 a COHAB propôs ação de despejo contra os moradores.

Fator agravante é que todas as ações postuladas pela COHAB correram na Justiça comum do Fórum Julio Garcia em Vespasiano, sendo os moradores citados por edital publicados no Minas Gerais, como se estivessem residindo em local incerto e não sabido, não obstante pertencentes ao plano habitacional da própria COHAB.

Os primeiros dos mil despejos que a COHAB iria realizar no dia 26 de junho bateu de frente com a mobilização dos moradores em ação organizada pela FAMEMG..

Com a ação conseguimos suspender todas as outras ações propostas pela COHAB e estabelecer uma comissão para realizar um estudo socioeconômico das famílias para renegociar suas dividas com a COHAB.

Participação popular
Diretora da FAMEMG

Sexualidade, machismo, rap e funk

NEGRIARA
 Por: Eleonor Alves
 Certas tentativas de definição do ato sexual se tornam uma espécie de metafísica, a qual analisa fenômenos sem considerar-se o contexto social em que estes ocorrem; como conseqüência, concepções historicamente determinadas são aceitas como naturais. 


No livro The Sadeian Woman – An Exercise in Cultural History, Angela Carter demonstra como o sentido que se costuma dar às relações sexuais, considerado atemporal, está na verdade relacionado a um determinado momento histórico. Certas tentativas de definição do ato sexual se tornam uma espécie de metafísica, a qual analisa fenômenos sem considerar-se o contexto social em que estes ocorrem; como conseqüência, concepções historicamente determinadas são aceitas como naturais.

A definição de ato sexual a que a autora se refere é a idéia de simples preenchimento de orifícios. Não só para Sade, cujos textos são o objeto de análise do livro, mas também para o nosso imaginário coletivo, essa concepção é considerada a representação mais simples, a essência do que entendemos a respeito do ato sexual. Entretanto, nessa definição estão implícitos os papéis de passividade, desempenhado pelos seres de sexo feminino, e de atividade, desempenhado pelos de sexo masculino. Mesmo em relações homossexuais, cada um dos parceiros deveria representar um desses papéis descritos. Além disso, essa regra se aplicaria não só a relações sexuais entre seres humanos, mas também às que ocorrem entre animais, o que demonstraria o caráter universal dessa distribuição de papéis.

Essa concepção, entretanto, está relacionada aos papéis sociais desempenhados pelos homens e pelas mulheres em determinado momento histórico. As mulheres, que realizavam (e ainda realizam) tarefas ligadas ao âmbito privado, estariam em posição de submissão e passividade, o que seria transposto para seu papel no ato sexual. Os homens, por sua vez, destinados a tarefas de âmbito público, naturalmente deveriam cumprir o papel ativo da relação sexual.

Até hoje se verifica as relações de dominação e submissão no ato sexual em palavrões, do tipo “foder”, em que a posição de passividade, entendida como papel feminino tanto em relações heterossexuais quanto homossexuais, é utilizada para ofender ou mesmo para expressar uma situação de desvantagem, embora o uso desses palavrões não seja conscientemente relacionado ao seu sentido de origem todas as vezes em que são usados.

A idéia de que o ato sexual é um simples preenchimento de orifícios, enfim, esconde o contexto, as pessoas envolvidas, os valores de uma época, além de, traduzindo as palavras da autora, reduzir os atores do ato sexual a instrumentos de simples funções, em que a busca do prazer se torna, em si mesma, uma questão metafísica.

Nos dias atuais, a deturpação da sexualidade, reduzindo-a a funções, permite, no seu estado mais extremo, imaginar-se que o prazer pode ser adquirido isoladamente por meio de produtos eróticos, como se o próprio prazer fosse uma mercadoria, isto é, não seria mais necessário nem mesmo uma pessoa que realizasse um serviço sexual, como ocorre na prostituição; um objeto inorgânico seria suficiente para alcançar-se o prazer. Escondendo-se que esses produtos são fabricados com o intuito do prazer individualista, costuma-se dizer que estes serão utilizados por parceiros em uma espécie de jogo, o que apenas é uma possibilidade, e não uma regra.

Embora a redução da sexualidade a funções não tenha surgido a partir dela, a música funk que se desenvolveu no Rio de Janeiro reforça, por meio das letras, a banalização do prazer, em que o contexto social desaparece, em que o ser humano – dono de uma história própria, que faz parte de uma determinada classe social, que tem uma personalidade, que sofre e deseja ser feliz – é reduzido a um papel a ser desempenhado no sexo. Sem entender essas questões, as pessoas que defendem o funk como é hoje – pois nem sempre as letras eram escritas assim – acusam os críticos de moralistas, quando na verdade essa música apresenta os problemas descritos acima. Entretanto, “os críticos” não fazem parte de um mesmo grupo, nem necessariamente compreendem essa questão da mesma maneira apresentada neste artigo, portanto as críticas que se fazem são heterogêneas, as quais, por sua vez, também podem ser criticadas.

De certo tempo para cá, certas pessoas defendem que o funk seria uma maneira de libertação sexual das mulheres, porém essa é uma perspectiva masculina historicamente construída, uma vez que a deturpação da sexualidade foi um processo desempenhado pela atitude dos homens ao longo do tempo. Por terem dominado economicamente as mulheres em dado período histórico que ainda não foi ultrapassado completamente, os homens preocupavam-se mais com o seu próprio prazer do que com o das mulheres no ato sexual, comportando-se de maneira egoísta, o que somente era possível por estarem numa posição de dominadores – note-se que esse comportamento é muito semelhante ao das classes dominantes em geral ao longo da história. Ainda que a maioria dos avanços não tenha se generalizado completamente, as mulheres, após a invenção dos métodos anticoncepcionais, alcançaram certa liberdade por terem o controle de sua sexualidade, além de terem alcançado certa liberdade econômica, a qual permite que elas imponham-se nas relações sexuais para que os seus desejos sejam satisfeitos. Entretanto, com a banalização da sexualidade proposta inconscientemente pelo funk, as mulheres começam a comportar-se como homens no sentido historicamente determinado, isto é, pensando somente no seu próprio prazer, gerando individualismo, ainda que a mulher não esteja isolada de fato – fenômeno que se percebe em outras situações cotidianas.

Se compararmos o tratamento dessa questão no rap, dos EUA principalmente, e no funk brasileiro, perceberemos que este propõe que as mulheres se comportem de uma perspectiva “masculina”; aquele, por sua vez, defende a dominação do homem, como se percebe pela exaltação dos cafetões nas letras de músicas e nos videoclipes. Essa generalização, porém, é falsa, uma vez que não se trata do estilo de música, mas sim de quem a realiza. Tanto os cantores de funk quanto os rappers dos EUA defendem a dominação do homem na relação sexual; talvez a diferença entre os dois esteja na maior apresentação de contexto social no rap. Por sua vez, certas mulheres do funk e do rap propõem que as mulheres se comportem de maneira “masculina”, porém o pequeno acesso que se tem na mídia às rappers dos EUA já demonstra que uma suposta dominação das mulheres é algo difícil de acontecer, mesmo porque a participação feminina nesse tipo de música, tanto no funk quanto no rap, é muito menor quantitativamente. Isso explica, talvez, a tentativa de afirmação feminina por meio de valores masculinos tradicionais. Boa parte das mulheres desse meio artístico, porém, analisa a questão de outra maneira.

O funk só pode ser concebido como favorável às mulheres da perspectiva de que a sexualidade da mulher não é voltada estritamente à reprodução, porém isso não é novo, uma vez que Sade, por exemplo, que viveu entre os séculos XVIII e XIX, já entendia essas idéias numa época em que nem mesmo existiam os métodos anticoncepcionais. Limitar-se a isso, hoje, significa parar na história.

Este artigo não tem como objetivo culpar os homens ou as mulheres de qualquer problema, mas sim mostrar a relação dialética que existe entre os âmbitos público e privado. De certa forma, assim como em várias relações humanas atuais percebemos a dominação, a submissão e o individualismo, as relações sexuais também ocorrem da mesma maneira, são marcadas pela forma como a sociedade se organiza. Para a superação desses problemas, a sociedade inteira deve mudar, devem surgir um novo homem e uma nova mulher, como diz Alexandra Kolontai, o que somente é possível plenamente por meio da transformação da sociedade, por meio dos valores comunistas.

Corpos dos seis jovens mortos em chacina são enterrados em Nilópolis


 Avó do jovem Josias chora sobre o caixão do neto no enterro (Foto: Renata Soares/G1)


NEGRIARA

Amigos e familiares chegaram ao Cemitério de Olinda em cinco ônibus. Cortejo foi marcado por gritos de 'justiça' e lamentação dos parentes.

 


Após o velório ao longo da madrugada e da manhã desta terça-feira (11), em um ginásio municipal de Nilópolis, na Baixada Fluminense, os corpos dos seis jovens mortos na chacina ocorrida no Parque do Gericinó, em Mesquita, foram enterrados pouco depois de 14h. O grupo desapareceu no sábado (8) quando foi tomar banho em uma cachoeira próxima à Favela da Chatuba.
"Só quero dizer para esses vagabundos que isso não vai ficar impune. Se a polícia continuar na Chatuba, vai encontrar muitos corpos ainda", disse Sildis Vieira, pai do jovem Christian, de 19 anos, um dos dois mortos que permaneceram com o caixão fechado no velório, junto com Glauber Siqueira, de 17. Além deles, foram enterrados Victor Hugo Costa e Douglas Ribeiro, de 17 anos, Josias Searles e Patrick Machado, de 16 anos.
As vítimas foram encontradas na manhã de  segunda-feira (10), em uma área perto da Via Dutra, em Jacutinga. Eles estavam lado a lado, enrolados em lençóis, nus, amordaçados e com sinais de facadas e marcas de tiro.
Cerca de 400 pessoas, entre familiares e amigos, acompanham emocionadas ao velório. Algumas delas, como a mãe de Glauber, desmaiaram. A quadra do ginásio municipal ficou lotada. Polícia Militar e Guarda Municipal reforçaram a segurança.
Os corpos chegaram ao longo da madrugada. Às 6h30, cinco corpos já estavam sendo velados. O corpo de Douglas Ribeiro foi último a chegar.
Camisa usada por amigos que não quiseram se identificar (Foto: Renata Soares/G1)Camisa usada por amigos que não quiseram se identificar (Foto: Renata Soares/G1)
Parentes dos seis jovens mortos na chacina passaram a segunda no Instituto Médico-Legal (IML) do Rio, onde fizeram o reconhecimento dos corpos. No início da noite, carros da funerária e da Defesa Civil começaram a sair do prédio para levar os corpos dos rapazes para a Santa Casa. Um trabalho que terminou no começo da madrugada. De lá, começaram a sair para o velório.
Caixões de Victor Hugo e Josias sendo enterrados (Foto: Renata Soares/G1) 
Caixões de Victor e Josias (Foto: Renata Soares/G1)
O prefeito de Nilópolis, Sérgio Sessim, decretou luto de três dias na cidade pelas mortes ocorridas na região.
Investigações
As investigações da polícia apontam para a participação de pelo menos 20 traficantes na chacina, segundo o delegado Júlio da Silva Filho, titular da 53ª DP (Mesquita). De acordo com o delegado, além do assassinato dos rapazes, os criminosos também seriam os responsáveis pela morte do pastor Alexandre Lima e de um aspirante a PM. A polícia também investiga o desaparecimento de José Aldecir da Silva, que acompanhava o pastor na comunidade.
O delegado disse que todas as mortes foram comandadas por Remilton Moura da Silva Júnior, conhecido como Juninho Cagão, chefe do tráfico de drogas na Chatuba. Ainda segundo a polícia, há a hipótese de o PM ter sido torturado na área do parque pelo grupo criminoso.
Crimes separados
O delegado Júlio da Silva Filho informou ainda que o pastor e José Aldecir teriam sido executados por não atender à ordem dos criminosos de se afastarem do local no momento da execução do PM.
Segundo o delegado, a chacina dos seis jovens e a possível execução dos outros três homens são dois crimes separados. A polícia ainda está à procura de José Aldecir da Silva. Ele caminhava no Parque de Gericinó ouvindo música, ao lado do pastor Alexandro Lima.

detidos_operacao_chatuba_300 (Foto: Gabriel de Paiva / Ag. O Globo)Suspeitos são detidos durante ocupação policial na
Chatuba, no Rio (Foto: Gabriel de Paiva/Ag.O Globo)
Ocupação
Depois dos crimes do final de semana, foi iniciada na madrugada desta terça-feira (11) a ocupação da favela da Chatuba, em Mesquita, na Baixada Fluminense. A ação não tem prazo para acabar.
Veja onde foram encontrados os corpos dos seis jovens desaparecidos em Mesquita, no Rio de Janeiro (Foto: Editoria de Arte/G1)
Cerca de 250 policiais, entre homens do Batalhão de Operações Especiais (Bope), Batalhão de Choque (BChoque), Batalhão com Cães, do Grupamento Aero Marítimo e da Coordenadoria de Inteligência, vasculham a Favela da Chatuba desde a 1h15.
A polícia faz trabalho de revista e de aproximação com a comunidade para tentar chegar ao paradeiro dos traficantes. Policiais com cães farejadores também vasculham a área de mata da Chatuba em busca dos criminosos.
De acordo com o coronel Frederico Caldas, relações públicas da PM, "a partir dessa ocupação definitiva vai ser instalada uma Companhia Destacada, com efetivo de 112 policiais" na região. "É uma resposta imediata aos atos bárbaros que foram cometidos no final de semana", afirmou.
Informações obtidas através do Disque-Denúncia têm sido fundamentais para essa ocupação. Só na noite de segunda-feira (10) foram 12 ligações.

Trabalho doméstico: herança histórica do racismo e sexismo no Brasil

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É sabido que existem alguns pilares que estruturam as desigualdades no Brasil. Este quadro que vivenciamos tem fortes traços marcados por dois elementos centrais na temática de desigualdade: sexismo e racismo. Além, obviamente, de outros elementos estruturantes para esse quadro, como a opressão de classe e a violência da imposição da heteronormatividade.
O papel histórico atribuído às mulheres sempre esteve relacionado ao espaço doméstico. Ambiente privado onde, destituídas da fala e de serem protagonistas de sua própria história, as mulheres ficavam à mercê das mais diversas formas de violência física, moral e psicológica, dentre outras. Ao quadro de construção de uma sociedade patriarcal e machista, soma-se a violência do racismo nesta representação, que por si só deveria gerar certo “desconforto” ou implicar em responsabilidades individuais e coletivas.
Nesse contexto, um tema de conturbada discussão se refere ao trabalho doméstico e mais especificamente às mulheres, que representam 95% das pessoas envolvidas nessa atividade, sendo que dessas 61% são mulheres negras (Fonte: PNAD, 2010). Além disso, das mulheres inseridas no mercado de trabalho, 17% estão no trabalho doméstico remunerado, o que representa em torno de 7 milhões de pessoas.
A reflexão que se traz a este quadro vivenciado pelas trabalhadoras domésticas se refere à herança histórica que a escravidão legou às mesmas. Nem é preciso uma profunda análise crítica para perceber a mentalidade da “benesse” que era concedida às trabalhadoras que tinham o “direito” de ficar na Casa Grande com os Senhores, acompanhar as Sinhás, servir de ama de leite, ser objeto sexual para a livre utilização de seus corpos pelos homens da casa e muitas vezes nem precisavam ficar na senzala com os demais negros escravizados. Afinal, do que elas poderiam reclamar? Perguntavam-se os senhores de negros escravizados.
Percebe-se a continuidade dessa mentalidade nas práticas cotidianas das/os empregadoras/es que não reconhecem o trabalho doméstico como outra atividade remunerada qualquer (com exceção da não-lucratividade), reproduzindo práticas deste período colonial Algumas/uns acreditam que esse serviço deve ser pago com “favores”, como dar as roupas usadas, por exemplo, ou que a não extensão de todos os direitos trabalhistas está relacionada à ausência de escolaridade (ensino formal), subestimando outras formas de produção de saber, inerentes a essa atividade.
Creuza Maria de Oliveira, Presidente da Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas (Fenatrad), no Seminário dos Trabalhadores Domésticos.Creuza Maria de Oliveira, Presidente da Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas (Fenatrad), no Seminário dos Trabalhadores Domésticos.
A vulnerabilidade não se refere tão somente às práticas cotidianas. O próprio Estado brasileiro compra esse discurso do “informalismo” (aqui utilizando-me de um eufemismo). Sob diversas alegações, transforma-se essa discriminação em texto legal, não estendendo às trabalhadoras domésticas todas as garantias trabalhistas. As justificativas passam pelo impacto econômico dessa extensão e pela possibilidade de diminuição do números de Carteiras de Trabalho assinadas, por exemplo.
Dessa forma, aumenta-se a vulnerabilidade das mulheres que exercem essa atividade. Tanto socialmente, no ambiente de trabalho, como legalmente, ao não ratificar a Convenção nº 189, que garante às domésticas os mesmos direitos que as/os demais trabalhadoras/es. É muita ousadia querer tratamento igualitário? E, mais uma vez, afinal, do que elas poderiam reclamar? Perguntam-se os novos senhores.
Diante desse quadro, duas coisas ficam bem explícitas. A primeira delas é que a situação das trabalhadoras domésticas deixa bem nítida as marcas do machismo e patriarcalismo brasileiro, que impõe ao corpo feminino o papel de “cuidado” do espaço doméstico, sem que isto represente uma atividade remunerada, já que a ela compete socialmente o zelo com o ambiente do lar. A segunda marca é o reconhecimento de que a precariedade e a vulnerabilidade social do trabalho doméstico são herança direta do sistema escravocrata e legado da mentalidade colonial, que ainda demonstra forte influência no pensar e no agir cotidianos e do Estado, ente que deveria garantir a equidade para todas/os.
Luana Natielle Basílio e Silva – Advogada, assessora do Cfemea e sócia colaboradora do Bamidelê

Os Megaeventos e a exploração sexual / Nosso corpo, nosso primeiro território!

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Nosso corpo, nosso primeiro território! PDF Imprimir E-mail
Silvia M. S. Camurça
Militante da Articulação de Mulheres Brasileiras e integrante da equipe multiprofissional do SOS Corpo (Recife - PE). Texto originalmente publicado na Revista Bocas do Mundo (AMB)

Foi no Fórum Social das Américas de 2003, na Guatemala, que começamos a posicionar nossa denúncia da violação e controle do corpo das mulheres nestes termos, ou seja tomando nosso corpo como nosso território, território que estamos dis-postas a defender. “Aqui não se toca, não se mata, não se maltrata”, era o complemento da frase que ali gritávamos em portunhol, brasileiras e guatemaltecas liderando caminhada na manhã de abertura do Fórum.
A ideia não se confunde com a insígnia ‘nosso corpo nos pertence’ dos anos 1970, mas trata da mesma questão, contudo indo mais além. Vejamos. Em ‘nosso corpo nos pertence’ afirmamos a autoridade do Eu de cada mulher sobre o próprio corpo, uma questão de autonomia e autodeterminação. Entretanto, ao mesmo tempo, esta insígnia dá margem a manter a dicotomia entre mente e corpo, como duas coisas separadas, um pertencendo ao outro: meu corpo pertence a mim. Ou seja, um Eu separado e possuidor de um corpo.
Com a ideia de ‘nosso corpo, nosso território’, propomos tomar o corpo como território onde nossa vida habita, algo inseparável da própria vida que se realiza através e pelo corpo, nossa base material de existência humana: meu corpo sou eu. Não há um EU separado do corpo. Esta ideia é especialmente importante para atualizar o debate sobre a autodeterminação reprodutiva de nós mulheres e, me parece, tem a força necessária para reafirmar que temos direito a sermos “donas de si mesmas”.
A insígnia “nosso corpo, nosso território” mantém o centro da demanda e da denúncia colocada em público nos anos 1970 e nos vincula à luta do presente contra a expropriação de outros territórios, lugares de existência coletiva. A luta em defesa de seus territórios vem sendo levada pelas homens e mulheres indígenas, quilombolas e de populações tradicionais do Brasil e de outros países da América Latina. Assim, essa é uma ideia que nos vincula umas as outras. No Brasil, vincula as mulheres do sudeste com as da Amazônia, as do litoral Cearense com as de Goiás, as da Bahia com as do Espírito Santo e as de Pernambuco. Nos vincula à luta por justiça
socioambiental, uma das frentes de luta da Articulação de Mulheres Brasileiras na qual confrontamos o padrão atual de desenvolvimento e denunciamos a situação das mulheres nas áreas de conflitos socioambientais em cada um destes estados.
Por território nos referimos a algo a mais que a terra. O tema nos remete a lugar onde se vive, onde as relações sociais se realizam, onde se produz, se cuida do viver, se faz cultura, arte, lugar de raízes, com história e sentido comum para quem o habita. Sabemos que as populações desalojadas de seu território podem até receber novas terras para habitar, mas nunca terão de volta seu território para sempre perdido e, com ele, a teia de relações sociais que ali estavam estruturadas.
Os territórios de muitas populações estão hoje fortemente ameaçados pela força do capital em sua nova fase de desenvolvimento. Esta ameaça se faz na forma de agronegócio, de especulação imobiliária, ou de grandes obras de desenvolvimento como hidrelétricas, transposição de rios, entre outras.
Trazendo o conceito para falar de nós mulheres, afirmamos que nesse território da vida que é o corpo, é que nossos sentimentos, nossas ideias, nossa inteligência, nosso desejo, nossa dor, nosso prazer acontecem. Assim podemos compreender melhor as críticas à mercantilização do corpo da mulher, por exemplo, pela medicina estética. Na verdade, pela mercantilização dos corpos femininos, a indústria da medicina estética mercantiliza e transforma em mercadoria as próprias mulheres. De consumidoras de produtos de beleza passamos a ser consumidas pela indústria que enriquece às custas dessa exploração.
Vamos mais além, nosso corpo, nosso território, é também explorado pela indústria farmacêutica, que acumula milhões pelo consumo de remédios, dos quais nós mulheres somos as principais usuárias. Entre eles estão tranquilizantes, antidepressivos e afins, medicamentos que no final das contas apenas são paliativos, mas nos ajudam a enfrentar os efeitos e dores que a situação de opressão nos impõe ao longo da vida.
Somos também exploradas pela indústria de turismo de massa: pela venda e mercantilização das mulheres negras, vendidas como mulatas, “produto de exportação”, ou a “mulher brasileira”, apresentadas ao consumidor de turismo sexual como muito caliente e disponível. Explora-nos no trabalho sexual, mas nos explora também nos serviços hoteleiros, restaurantes e casas de diversão, mediante contratos de trabalho precários e desvalorizados. E ainda como “nativas”, indígenas ou não, nas florestas, no pantanal ou nas praias do nordeste e do sul, sempre vendidas como prendas fáceis e disponíveis para a conquista do visitante.
Por fim, gritamos que nosso corpo é nosso território, para dele afastar o poder do direito patriarcal e a ingerência das autoridades religiosas que, em nome da fé ou da lei, criminalizam as mulheres pela prática do aborto. Nosso corpo não é um “meio” ou um instrumento a serviço da reprodução biológica da vida humana. Não. Nosso corpo é parte de nossa própria existência, vale por si mesmo, como tem sentido a existência de toda mulher. E sobre nós, nossa existência, somos e queremos ser sempre soberanas, livres, sujeita de nossas vontades e donas, cada uma, de si mesmas.


Os Megaeventos e a exploração sexual
Lívia Gimenes Dias da Fonseca
Doutoranda em Direito/UnB e integrante do projeto Promotoras Legais Populares do Distrito Federal (PLPs/DF)

Os Megaeventos, que incluem a Copa do Mundo e as Olimpíadas que irão ocorrer no Brasil em 2014 e 2016, respectivamente, mobilizam as práticas de esporte, mas também as mais variadas práticas de violações de Direitos Humanos. A Revisão Periódica Universal da ONU, lançada em maio de 2012, questiona a violação de direitos humanos na preparação para Copa de 2014 em especial no que tange a reestruturação urbana que já tem provocado deslocamentos e despejos forçados1.
Em ritmo de Rio+20, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) já tem demonstrado preocupação com o impacto ambiental dos megaeventos. O PNUMA prevê que a Copa do Mundo gerará o aumento de 5,5 milhões de turistas, que visitam anualmente o Brasil, para em torno de 7,2 milhões, realizando campanha mundial para que os estrangeiros busquem opções de atividades turísticas de baixo impacto ambiental2. Todavia, a preocupação do movimento feminista está em relação ao impacto que este aumento do turismo pode realizar sobre os corpos das mulheres que são colocados como “ofertas” turísticas aos visitantes.
O turismo sexual se beneficia das facilidades oferecidas pela indústria do turismo (hotéis, bares, clubes noturnos, etc.) para servir a turistas nacionais e estrangeiros por meio da oferta de “pacotes turísticos” que incluem “promoções” de exploração sexual comercial de mulheres, crianças e adolescentes frequentemente vitimizadas pelo tráfico de pessoas.
A Fundação francesa Scelles apresentou recentemente estudo comprovando que essas grandes competições internacionais permitem que as redes criminosas “aumentem a oferta” de prostitutas. Na África do Sul, por exemplo, o número de prostitutas no país, estimado em 100 mil, aumentou em 40 mil pessoas durante a Copa do Mundo3. Outro exemplo, em março de 2012, a Procuradoria Especializada em Defesa da Criança e do Adolescente de Mato Grosso denunciou um sitio na internet denominado “Garota Copa Pantanal 2014” que divulgava vídeos e fotos de garotas menores de 18 anos em posições sensuais com camisetas promocionais alusivas ao torneio de futebol4.
Importante ressaltar que o enfrentamento à exploração sexual de mulheres não se faz coagindo as profissionais do sexo, isto é, culpabilizando as mulheres pelas violações de direitos a que são submetidas. Afinal, prostituição não é crime. O que se busca combater são a exploração e o abuso da vulnerabilidade em que, por vezes, se encontram essas mulheres.
Em todo o mundo, estima-se que, por ano, 2,5 milhões de pessoas sejam vítimas de tráfico de seres humanos, atividade que submete suas vítimas a cárcere privado, exploração sexual, trabalho escravo e venda de órgãos humanos5. Este crime afeta principalmente mulheres e meninas, que representam 79% dos casos6. O Estado de Goiás ocupa a primeira posição do ranking nacional de tráfico de pessoas. De acordo com dados de inquéritos apurados pela Polícia Federal, o estado goiano foi responsável, nesta década, por 140 (18,6%) dos 750 casos registrados em todo o País nesse período7.
O Distrito Federal também é uma importante rota da exploração sexual de crianças e adolescentes. De acordo com a Polícia Rodoviária Federal, a cada três dias é encontrada uma criança ou adolescente em situação de risco nas estradas que cortam a capital e o Entorno. Em 2011, houve 124 flagrantes em carros, bordéis e boleias de caminhão9.
Os dados do Disque Denúncia 100 da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH/PR), referentes ao período de janeiro a fevereiro de 2011, demonstram que o sexo feminino corresponde à maioria das vítimas nas mais variadas formas de violência sexual praticadas contra crianças e adolescentes: são 80% das vítimas de exploração sexual, 67% de tráfico de crianças e adolescentes, 77% de abuso sexual e 69% de pornografia10.
O Pacto Nacional de Enfrentamento à violência contra a mulher obriga o Estado brasileiro a implementar campanhas e apoiar ações educativas permanentes que possibilitem a desconstrução dos mitos e estereótipos relacionados à sexualidade das mulheres e à naturalização da violência contra as mulheres; e que promova o enfrentamento à exploração sexual e ao tráfico de pessoas, principalmente nas cidades sede da Copa do mundo 2014 (eixo II, item 2 - f).
Para fiscalizar as ações do Estado e pressionar para que haja medidas efetivas de proteção aos Direitos Humanos estão sendo organizados diversos Comitês Populares da Copa e a temática da exploração dos corpos de mulheres, crianças e adolescentes não pode ficar de fora dessa vigilância11.
(1) Disponível em http://www.onu.org.br/revisao-periodica-universal-da-onu-questiona-direitos-humanos-na-preparacao-paracopa-de-2014
(2) Disponível em http://www.onu.org.br/rio20/pnuma-lanca-passaporte-verde-para-conscientizar-turistas
(3) Disponível em http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/01/120118_prostituicao_df_is.shtml, acesso em 04/06/2012.
(4) Disponível em http://g1.globo.com/mato-grosso/noticia/2012/03/site-e-suspeito-de-usar-meninas-de-biquini-parapromover-copa-em-mt.html, acesso em 04/06/2012.
(5) Saiba mais em http://www.oitbrasil.org.br/sites/default/files/topic/tip/pub/cidadania_direitos_humanos_372.pdf
(6) Disponível em http://www.andi.org.br/infancia-e-juventude/pauta/trafico-de-pessoas-numeros-no-brasil, acesso em 04/06/2012.
(7) Disponível em http://noticias.terra.com.br/brasil/noticias/0,,OI4801416-EI5030,00-Goias+lidera+o+ranking+de+trafico+de+pessoas+no+Brasil.html, acesso em 04/06/2012.
(8) Notícia “DF na fronteira da exploração sexual infantil”, do Correio Braziliense, de 01/06/2009, Cidades, p. 17. Em relação a estas denúncias, foi instalada em março de 2012, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes no Distrito Federal.
(10) Disponível em http://www.cet.unb.br/turismoeinfancia/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=143:18-de-maio-dia-nacional-de-combate-ao-abuso-e-a-exploracao-sexual-de-criancas-e-adolescentes&catid=13:noticias&Itemid=24, acesso em 04/06/2012.
(11) Saiba mais em http://www.portalpopulardacopa.org.br/index.php