Vejamos: Adorno disse ...

NEGRIARA

"Que toda a cultura depois de Auschwitz é um lixo. Funk fala de sexo. Falar de sexo é pornografia. Funk é pronografia. Pornografia não é cultura, logo, funk não é cultura. Ora, por mais que o funk tenha surgido depois de Auschwitz, Adorno não iria concluir que funk é lixo, porque CULTURA é lixo, e funk não é cultura! Será que funk…não é lixo? Nossa, essa autora deve ser uma tremenda funkeira! É isso aí, Iara Quebra-Cara, faça o Bonde do Adorno!!

                                                                                            (Adorei esse comentário) kkk

A nova moral do funk

Gênero modificou a natureza clandestina da pornografia

A afirmação adorniana de que após Auschwitz toda cultura é lixo não perde sua atualidade. Se, de um lado, a frase implica que a cultura não vale mais nada, de outro quer dizer que “lixo” é a melhor categoria explicativa da cultura como “aquilo que se rejeita”.
Mas vem significar também que cultura é a experiência do que sobra para os indivíduos levando em conta as condições socioeconômicas e políticas marcadas pela divisão de classes, de trabalho, de sexos, da própria educação dirigida de maneira diferente a pobres e ricos.
A partir da elevação do lixo à categoria de análise, podemos com tranquilidade ecológica (aquela que faz a separação dos descartáveis por categorias) partir para uma brevíssima investigação daquilo que se há de nomear como “moralina funk”, a performance corporal-sonora que se apresenta como o ópio do povo de nosso tempo.
Muito já se escreveu sobre o fenômeno que merece atenção filosófica urgente desde que se tornou a “cultura” que resta para uma grande camada da população de classes menos favorecidas econômica e politicamente.
Muitos afirmam que “o funk carioca também é cultura”, mas pouco comentam sobre seu sentido como capital cultural justamente porque seu único capital implica uma contradição: pobreza material e espiritual. Ou seja, capital nenhum.
Na ausência desse capital sobressai o que resta aos marginalizados. Eles descobriram o valor daquilo mesmo que lhes resta. Eis o capital sexual.
A performance da moralina funk depende desse capital sexual. Explorado, ele é a única mercadoria da consciência e do corpo coisificado. Seu paradoxo é parecer libertário quando, na verdade, é a nova moral.
Pornografia moralizante
Produto dos mais interessantes da sempre moralizante indústria cultural da pornografia, a esperteza do funk carioca é transformar em regra aquilo que foi, de modo irretocável, chamado por seus adeptos pela categoria do “proibidão”. A versão da coisa que não é para todo mundo.
A fórmula do funk é tão imbatível quanto a lei do estupro das histórias do Marquês de Sade. É o barulho como poder, ou melhor, violência. Nenhum ouvido escapa da moralina funk na forma de disfarçadas ladainhas em que as mesmas velhas “verdades” sexistas se expõem, como não poderia deixar de ser, pornograficamente.
A economia do proibidão
Mandamento sagrado da performance é que ninguém ouse imputar marasmo ao tão cultuado quanto profanado Deus Sexo.
Não existe uso da pornografia autorizado, pois a regra de sua moral é a clandestinidade. Daí a função do proibidão na economia política do funk. A história da pornografia oscila entre ser o outro lado da lei e ser apenas outra lei.
Foi isso que fez seu sucesso político em sociedades autoritárias contra o princípio publicitário que lhe deu origem. É o que está dado em sua letra: porno (prostituta) e grafia (escrita) definem, na origem, a mulher que pode ser vendida. E que, para ser vendida, precisa ser exposta.
A pornografia é, assim, uma espécie de exposição gráfica da mercadoria humana. Não é errado dizer que a lógica que transforma tudo em mercadoria tem seu cerne na “prostitutabilidade” de todas as coisas. Nada mais simples de entender em um mundo de pessoas confundidas com coisas.
Que a pornografia esteja ao alcance dos olhos, dos ouvidos, de todos os sentidos, exposta em todos os lugares, significa apenas que a regra do ocultamento foi transgredida. Mas implica também sua efetivação como publicidade universal. Isso explica por que ela não choca mais.
Na performance do funk carioca ela é altamente aceita em escala social. Seja pela pulsão, seja pela acomodação, se o imoral torna-se suportável é porque ele tomou o lugar da moral. É a nova moral.
A pornografia de nossos dias é tão bárbara quanto a romana pornocracia, com a diferença de que não temos mais nada que se possa chamar de política em um mundo comandado por regras meramente econômicas.
Daí que todo funkeiro ou seu empresário saibam que seu negócio é bom pra todo mundo.

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Comentários (80)

  • Vincent Rosenblatt |

    Em “A nova moral do funk”, a argumentação da filósofa Marcia Tiburi gira em torno de um erro semântico: o que se designa como Proibidão corresponde ao subgênero de funk carioca cuja denominação correta é Putaria. É possível que aquilo de que ela fala não exista.
    Interessados podem ler a resenha deste texto da Marcia Tiburi por Carlos Palombini / UFMG aqui :
    http://www.riobailefunk.net/pt/2011/12/12/mora-na-filosofia-putaria-e-lixo/
  • Sobrevivente de Auschwitz |

    Mora na filosofia: Putaria é lixo. Ludwig Wittgenstein afirma nas Investigações filosóficas que “uma nuvem inteira de filosofia se condensa numa gotinha de gramática”. Em “A nova moral do funk”, a argumentação da filósofa Marcia Tiburi gira em torno de um erro semântico: o que se designa como Proibidão corresponde ao subgênero de funk carioca cuja denominação correta é Putaria. É possível que aquilo de que ela fala não exista: da “performance corporal-sonora” descartada, não se dá a conhecer nenhuma música, nenhuma letra, nenhum artista, nenhum evento, plateia nenhuma. Também não se leva em conta a história dessa música, sua teoria, o que ela possa representar para quem a produz, faz circular, consome, vive. Tampouco entra em jogo a relação problemática da música funk carioca com a ideologia. “Há mais coisas no céu e na terra do que sonhadas em tua filosofia”, diz o Príncipe da Dinamarca. Uma delas é a música. Outra, sua literatura.
    http://www.riobailefunk.net/pt/2011/12/12/mora-na-filosofia-putaria-e-lixo/
  • moralina tiburina |

    Triste ver o Adorno servindo de adorno.

    Márcia, se tu respeitas teu título de fílósofa, vai dar uma lidinha antes de falar bobagem. Vou te passar uns sites, tá? Aí tu lês e fica mais instruída e para de empobrecer a rede com essa “moralina tiburina”:
    http://www.riobailefunk.net/pt/2011/12/12/mora-na-filosofia-putaria-e-lixo/
    (esse é pra entenderes o teu erro semântico)
    http://lasa-2.univ.pitt.edu/LARR/prot/fulltext/Vol43no2/03_43.2sneed.pdf
    (esse segundo aqui é pra reveres teu conceito de pobreza material e espiritural)
    Abraço e boa instrução
  • lucas galon |

    caros, muito interessantes todos os textos indicados nas respostas, mas discordo da reação – talvez o problema semântico tenha mais a ver com a definição de “cultura” do que de “proibidão/putaria…
    De resto, penso assim: o que seria de um grande filósofo como Adorno, se sua filosofia fosse olhada apenas por esta ótica historicista, que a circunscreve ao fenomeno temporal específico da sua criação? Prefiro os textos que de alguma forma (posso ou não concordar com seus pressupostos) apostam no carater re-semantizador da filosofia pelo que ela tem de alcance, por assim dizer, atemporal…neste caso, o texto da Tiburi é mais interessante…
  • Luciano Cesar Morais |

    Acho o artigo resposta de Palombini execrável. Ele simplesmente não entendeu que o artigo da Tiburi é justamente de denúncia contra a apropriação do funk por um mecanismo que preserva desigualdades, reafirma preconceitos, reforça sistemas de exploração cultural. O humano é tratado como utilitário e todo o utilitário tem seu refugo. Esse refugo, o lixo, só pode ser outros humanos e assim escolhe-se (sim, escolhe-se pela periferia o que ela poderá ouvir/ler) não só a parcela da população a ser tratada como lixo (os negros e pobres, basicamente) como dá-se visibilidade a esse prêmio que preserva a desigualdade de acesso a cultura. Além do texto ser pretensioso, confessa a ignorância falando demais antes de pensar no que realmente está sendo dito pela autora. Bom dia aos cavalos…
  • CARLOS EDUARDO |

    Ola Senhorita Marcia, eu queria saber por que os jornais, os canais de TV, sites, quando falam do funk, só falam do lado ruin do funk, por que nunca falam do funk do bem, de elite, queria muito que a senhorita me ajudasse a entender isso por que parece que todos querem que o funk seja reconhecido por esse lado ruin, concordo com a senhorita em algumas coisas pois sou um dos que lutam contra esse tipo de música “PUTARIA”, “PROIBIDÃO” mas eu queria saber o por que ninguem mostra o meu estilo (kadu e as Gatinhas), essas são algumas músicas minhas: Deixa a gatinha dançar, No jump, Ela é DG, eu ja falei deixa a gatinha dançar, Eu Aprontei e outras, e tem alguns artistas, Mcs que tambem são do mesmo estilo do que eu, como: MC Bruninha, Bochecha, MC Marcinho, Anitta, Marcio G e outros, até peço ajuda a senhorita para que eu posso entender o por que que não mostram esse lado bom do funk e se quizer estou a disposição da senhorita para exclarecer qualquer dúvidas, abraços e fica com Deus!!!
  • Rubens Russomanno Ricciardi |

    cara Profa. Marcia Tiburi, parabéns por mais este teu texto brilhante, e me faz lembrar do Jean-Luc Godard, quando afirmou que “a cultura é a regra e a arte é a exceção” e que a “cultura quer aniquilar com a arte”, portanto, se o funk é essencialmente cultura (como de fato o é, aliás, mera indústria da cultura), está claro que qualquer tentativa de valorizá-lo só pode ser contrária aos fundamentos da arte, digo, da “grande arte”, como aliás, diria Heidegger (que no fundo era não só leitor como admirador de Adorno, só não declarava em público porque era orgulhoso, por outro lado, o Adorno também era leitor e admirador do Heidegger, só dizia o contrário em público porque tinha pouca coragem rs rs rs)… abs RRR (PS: faço aqui à “pouca coragem” de Adorno uma homenagem póstuma à saudosa Stephanie, viúva do Eisler, foi ela quem me ensinou sobre esta característica pessoal do Adorno).
  • Bruno "Ruivo" Ladvocat Cintra |

    O artigo da autora não é sobre funk. Se algum marciano descesse à Terra sem saber o que é funk e lesse esse texto, continuaria sem saber o que é funk, mas saberia que a autora não sabe argumentar. Noves fora o que é funk, o que é Lady Gaga, o que é Miles Davis, ou o que é Wagner, o fato é que nada de substantivo pode ser inferido do artigo porque ele não expõe nenhum raciocínio, apenas decreta premissas e tenta encadeá-las à base de silogismo. Isso qualquer néscio consegue fazer, até para provar o contrário do que apregoa a a autora. E a partir das mesmíssimas premissas! Vejamos: Adorno disse que toda a cultura depois de Auschwitz é um lixo. Funk fala de sexo. Falar de sexo é pornografia. Funk é pronografia. Pornografia não é cultura, logo, funk não é cultura. Ora, por mais que o funk tenha surgido depois de Auschwitz, Adorno não iria concluir que funk é lixo, porque CULTURA é lixo, e funk não é cultura! Será que funk…não é lixo? Nossa, essa autora deve ser uma tremenda funkeira! É isso aí, Marcia Quebra-Cara, faça o Bonde do Adorno!!
    Mas vamos supor que a autora seja paga para fazer uso de silogismos sem raciocínio; talvez seu patrão seja um tirano, não a julguemos. Mesmo assim, num texto cheio de premissas categóricas, bastaria UMA exceção a qualquer premissa para desmontar a sua tese. E não faltam exceções: nem todo funk é proibidão; proibidão fala sobre guerra de gangues, não de sexo; tudo que se cultiva é cultura, seja ou não palatável para o NSDAP ou para a autora, etc. Dá pra ficar o dia inteiro aqui. Mas comecemos pela primeira afirmação categórica da autora: “a afirmação adorniana de que após Auschwitz toda cultura é lixo não perde sua atualidade.” Não é nem uma questão de se achar uma exceção, a premissa como um todo é falsa sob critérios objetivos. Por um motivo prosaico: está errada a suposta afirmação “adorniana” (Mon Dieu! Não poderíamos chamá-la de “A afirmação de Adorno” sem sermos caçoados por nossos pares do clube privê de beletristas? Será necessário falar “adorniano” para encantar esses leitores tão sedentos por um copo de pedantismo de tanto suportar a moléstia filistina do obscurantismo funkeiro dessa Babilônia trópico-urbana?)
    A afirmação adorniana é a seguinte: “a crítica da cultura se confronta com o derradeiro estágio na dialética entre cultura e barbárie: escrever um poema depois de Auschwitz é barbárico e isso corrói também a compreensão em que expressa por que se tornou impossível escrever poesia hoje.” Se essa afirmação adorniana for levada literalmente–o que é um problema, até porque está na conclusão de um ensaio, e não na declaração de tese de um trabalho científico–que ao menos seja reconhecida na sua literalidade. Até para ninguém cometer a impropriedade de intercambiar “poesia” por “cultura” e “barbárie” por “lixo”. Não importa o que o “funk” seja, sempre será mais fácil associá-lo a Lady Gaga, Miles Davis, ou Wagner do que associar Marcia Tiburi com Adorno.
  • Helaine Mangeli |

    Lembro com se fosse hoje a primeira vez que cantei na minha comunidade. Em minhas maos estava o meu sonho, materializado num pedaço de papel rabiscado. Esse sonho me levou longe…… cantei com Reis e Rainhas . Hoje o baile funk de comunidade e’ realizado de maneira clandestina e se tornou marginalizado por falta de atencao das autoridades. Hoje pessoas capacitadas lutam para o reconhecimento do maior movimento Jovem do País. Essa semana li’ uma reportagem numa revista renomada de Sao Paulo ESCULHAMBANDO o Funk. Uma antropologa ,Filosofa , Doutorada em nao sei o q….. me surpreendeu, chamou o funk de lixo pra baixo.
    Infelizmente todo estudo, todos os livros, todas as aulas para esta pessoa foram em vao. Na escola aprendi a respeitar e aceitar as diferenças do próximo desde o jardim de infancia. Na minha comunidade aprendi a sonhar. Em casa aprendi a amar. E na Vida aprendi que toda forma de manifestação preconceituosa deve ser abominada. Mc Leozinho
  • Marco Costa |

    Sempre haverá defesa possível para qualquer coisa. Não há políticos que conseguem explicar e justificar o dinheiro na cueca?
  • Sobrevivente de Auschwitz |

    Quem leva a sério filosofia em 17 parágrafos de 3 linhas? Se os parágrafos fossem um pouco mais curtinhos, ela poderia ter bancado a Susan Sontag subtropical e escrito “Notes on Funk”. O texto não tem lógica (vide supra), é cheio de clichês e não consegue nem ser altissonante. É admirado por quem, de Adorno, só dá pitada. Filosofia de massa.
  • moralina tiburina |

    Então o funk é “essencialmente cultura” que não se eleva a “grande arte”? Típica ideologia não revisada, arcaísmo posrenascentista. O que é grande arte pra ti Russomano? Beethoven? Bach? Que nome alemão que pode te colocar acima do que consideras gentalha? A grande arte tem que ser legitimada na Globo News pela Maitê Proença e suas colegas? Também pode ser feita por brasileiros, desde que obedeça à “grande arte”…
    Essa discussão míope sobre a arte permanece fazendo a manutenção de asssimetrias: essencializar a cultura para desnivelar é um golpe velho usado pelas elites, Sr. Russomano. Desvalorizar o funk pra valorizar os “gênios” produzidos pela cultura do século XIX é uma constante na discursália pseudo-filosófica. Mas Márcia não sabe a diferença entre “putaria” e “proibidão”. E tentar essencializar o que não se conhece, fica difícil.
    Filosofia de massa, como disse o Sobrevivente de Auschwitz, além de elitista: A exclusão e a coisificação do corpo se dá justamente na carolice da moralina tiburina exposta no Saia Justa (opa! Saia justa pode, tiburina?)Pela lógica tiburina, deveríamos todos juntos cantar apenas cantos gregorianos, aí suprimíamos o capital sexual e ficaríamos só com o espiritual, além de mistificar o corpo, não é?
    Em tempo: o Heiddeger não só era admirador de Adorno, como do regime nacional-socialista alemão, ou nazista, como queiram chamar (confiram seu discurso de 1933).
    O próximo passo é renovarem a ocupação das favelas usando a moralina tiburina. É… fiquei lembrando do filósofo do filme Doggville, lembram? Márcia Tiburi é nosso Tom Edson em versão cruel. Se, pelo menos enquanto Grace (Nicole Kidman) era violentada, havia uma certa complacência em sua filosofia de boteco e em sua falta de ação, aqui vemos o contrário: um certo apoio ao regime que clandestiniza e aos essencialismos assimétricos. Enquanto isso, nossa Grace/povo é violentada e qualquer expressão é coisificação e falta de capital espiritual.
    Não é mole!
  • Marcelo P. |

    É uma pena ver como parte do cenário decadente da música de academia (e não é daquelas putz, putz) costuma se portar: favorável aos usos conta gotísticos e vazios de fiolosifas desconhecidas, porém ruminadíssimas (vai entender o paradoxo…) por arautos de uma “cultura” inexistente.
    P.S.: Parece que o Luciano foi o cavalo que recebeu o bom dia feito um coice.
  • Lúcia Terra |

    Torne a mentira grande, simplifique-a, continue afirmando-a, e eventualmente todos acreditarão nela
    Adolf Hitler
    Senhora Hitler,é som de preto de favelado mais quando toca ninguém fica parado.
  • MC LEOZINHO |

    OPORTUNIDADE
    O pancadão vai sacudir
    Deixa o teu corpo balançar
    Quem é do funk vem se divertir
    Quem não é pode vir, pode chegar
    Os pequeninos dizem por aí
    Querem crescer só pra virar MC
    Querem cantar, e o que tem demais?
    São da favela e querem pedir a paz
    Dizem aí que é apologia
    Mas não é não, é simplesmente o dia-a-dia
    Vivido na comunidade
    E o “neguim” só quer oportunidade
  • Igor Reyner |

    Depois de ler este texto desconsiderável e assistir a este arremate:
    http://www.youtube.com/watch?v=_KfbL8Kt3-w&feature=youtu.be
    Acredito que a única coisa que poderia declarar já foi declarada por William Blake, repito:
    “Como o ar para o pássaro ou o mar para o peixe, assim é o desprezo para o desprezível”
    Grato.
    P.S.: É uma pena que ela conquiste apoio de qualquer setor do meio musical (o meu meio) brasileiro. Completa decepção com alguns professores que postaram, vergonha.
  • Rubens R. Ricciardi |

    Oi Moralina Tiburina, por que vc não assina com o teu nome de verdade??? um verdadeiro Ombudsman sempre tem nome e sobrenome!
    vou responder naquilo que vc me citou:
    “O que é grande arte pra ti Russomanno? Beethoven? Bach?”
    claro, vc se esqueceu do Manuel Dias de Oliveira, do Alexandre Levy (grande inventor do samba!), do Villa-Lobos, do Gilberto Mendes, enfim, todos estes são compositores de uma grande arte! (já por exemplo, o Lobão ou o Cazuza, ou Xuxa, Padre Marcelo etc. tudo isso é indústria da cultura).
    vc fala de “elite”, Moralina????? coisa de elite são os shows quase sempre caríssimos de indústria da cultura. Por exemplo, aqui na minha cidade, Ribeirão Preto, este marketing cultural do show biz aluga sempre os melhores espaços, mesmo aqueles de boa acústica natural onde sequer se necessita amplificar o som (como é o caso do excelente Theatro Pedro II daqui, por exemplo, uma tristeza como maltratam o teatro), aí vem aquelas caixas de som enormes com reprodução invariavelmente barulhenta do som – é isso que Adorno chamava de desartização da música, muito barulho pra pouco conteúdo! – já os nossos concertos sinfônicos ou de câmara são sempre gratuitos, portanto, são projetos absolutamente populares, no sentido de que todos têm acesso fácil e imediato a eles! ou seja, há muito mais elite na indústria da cultura do que na música de concerto. E olha que nós sempre tocamos tranquilo (sem sensacionalismo, sem show, sem pulação, sem luzes nem efeitos especiais). É pra se ouvir música de maneira concentrada enquanto música. Ou como dizia Heidegger, “só ouvimos de fato quando somos todos ouvidos”! E de maneira bem simples, como já disse, sem muita parafernalha, com recursos infinitamente menores… A gente da arte da música vem de baixo, já a indústria da cultura é que vem de cima (precisa se aliar o som musical sempre a um visual de grande happening, algo invariavelmente apelativo… a gente não precisa de nada disso, daí nossa música ter que ser de fato mais exigente, pois as pessoas vão lá pra ouvir música, não pra “bombar” (desculpa a expressão de mau gosto) num show!
    vc disse ainda “Desvalorizar o funk pra valorizar os gênios produzidos pela cultura do século XIX é uma constante na discursália pseudo-filosófica”.
    Eu não penso de acordo com o século XIX, eu penso de acordo com Heráclito, que dizia “um, dez mil, se for o melhor”, bem como Heráclito já dizia “a massa está empanzinada como o gado”! Como todo bom filósofo, Heráclito era também profeta, pois escreveu no século VI antes de Cristo e seus fragmentos continuam atualíssimos! Parece que ele está falando da indústria da cultura – esta invenção do século XX que já deu o que tinha que dar (um dia a ficha vai cair e como toda distorção ideológica a favor de uma estrutura de poder, a indústria da cultura também ruir!… – e acho sim que a arte de verdade, por ser um fundamento da história, vai conseguir sempre sobreviver). Ou vc quer dizer que qualquer atitude proponente ou afirmativa em matéria de arte é mero romantismo???? Como vc é excludente! – eu não posso ter sequer opinião??? Lembre-se que Platão entendia a doxa como processo imprescindível para a episteme! – Poxa, mas se tudo isso é mero romantismo (daí vc ter colocado “gênio” assim entre aspas, suponho), aí eu tenho que dar realmente razão pra vc, pois sou mesmo um romântico incorrigível, adoro idéias de verdade, propostas de arte e de filosofia que fazem a gente ser imediatamente diferente, adoro Heráclito, adoro Bach, adoro as tragédias de Eurípedes, adoro Dante Alighieri, adoro Brecht, adoro todos estes e demais românticos de todos os tempos!
    vc disse também: “Em tempo: o Heiddeger não só era admirador de Adorno, como do regime nacional-socialista alemão, ou nazista, como queiram chamar (confiram seu discurso de 1933)”.
    Vc está generalizando um curto momento na vida de Heidegger (que sempre esteve inclusive muito próximo a tantos judeus e comunistas e de maneira mais íntima – leia, por exemplo, o que a Hannah Arendt – e olha que ela entendia alguma coisa de totalitarismo, não é mesmo? – escreveu sobre Heidegger num de seus últimos textos, quando ela – justamente ela! – o trata como o grande filósofo do século XX). Heidegger ficou um tempo muito pequeno no partido e bem no início, e ele queria na verdade criticar a modernidade, achou que os nazistas tinham algo de recuperação daquilo que ele entendia por Dasein. Bom, está claríssimo que foi um equíovoco terrível de Heidegger, ou seja, ele errou feio na leitura do que seria o nazismo. Mas como dizia Lênin, o “homem inteligente não é aquele que não comete um erro, mas sim aquele que o corrige rapidamente”. E eis que Heidegger deixou em menos de um ano seu posto de reitor em Freiburg e se afastou totalmente do nazismo – ainda mais quando Heidegger percebeu que o nazismo é na verdade o grande triunfo do terror tecnocrata (e isto era o que Heidegger justamente queria combater na modernidade!). Vários autores, como o Prof. Ernildo Stein, esclarecem este ponto. Indico, portanto, o Prof. Stein da UFRG pras suas próximas leituras! Não se pode culpar unilateralmente o Heidegger naquele contexto, pois vários grandes homens caíram na sedução de Hitler nos primórdios de seu programa, como Anton Webern, por exemplo. Lembre-se que os nazistas consolidaram ainda o projeto de inventar a cultura popular iniciado pela igreja no final do século XIX. E os nazi-fascistas (muitas das idéias originais vinham de Mussolini) eram muito competentes em propaganda e marketing (mesmo porque eles inventaram de fato o marketing e a propaganda moderna!). É por isso que o Adorno disse certa vez que Auschwitz é igual a Hollywood, é por isso que a essência do nazismo está bastante presente ainda na indústria da cultura mesmo ainda em nosso século XXI, vc quer exemplos?????? Portanto, não confunda Heidegger, que tem a ver com a compreensão do que é arte (leia o texto dele, “A origem da obra de arte”, muito bom!), com o nazi-fascismo, que, por sua vez, tem a ver com a indústria da cultura – não é por menos que Berlusconi adora (ou adorava) tanto citar frases inteiras de Mussoluni…
    abraços a vc e agradeço pela atenção, bem como pela troca fecunda de idéias!!
    Rubens Russomanno Ricciardi
  • Uther Pendragon |

    Pra mim essa professora continua escrevendo filosofia de buteco, serve ao seu patrão que elegeu uma manifestação de uma parcela da população restrita a um espaço urbano limitado como cultura. Na verdade não vale nem a pena comentar esse monte de bobagem que essa dona teima em escrever.
  • Dodge Mann |

    Os comentaristas deste texto citam filósofos. Citam passagens de tratados estéticos, citam os mais diversos intelectuais, doutores, críticos. E tudo para desmontar a crítica rasteira de uma filósofa. Tanto esforço da rapaziada para sair em defesa de um gênero musical vagabundo, chulo, piegas e que pretensamente revolucionou o modo como as classes sociais menos favorecidas se expressam. E eu achando que o samba de roda baiano da metade do século XIX, declarado Patrimônio da Humanidade pela Unesco, já havia feito todo o caminho transgressor, libertador e crítico, dando origem a maior manifestação musical e social carioca, o samba, tivesse feito todo o serviço, Obrigado amiguinhos que me mostraram que o Funk Carioca que é o tal. Esse impiedoso redentor do homobrasilis.

  • Mora na filosofia: Putaria é lixo - proibidão |

    09/01/2012

    [...] filosóficas que “uma nuvem inteira de filosofia se condensa numa gotinha de gramática”. Em “A nova moral do funk”, Cult 163, novembro de 2011, a argumentação da filósofa Marcia Tiburi gira em torno de um [...]
  • Rubens Russomanno Ricciardi |

    26/01/2012

    caro Dodge Mann, vc disse “samba de roda baiano da metade do século XIX”, por favor, me passa o nome de um autor, o título de um samba ou mesmo qualquer fonte desta época (fonte primária histórica, por favor) que indique de fato um samba enquanto gênero musical anterior a 1890!!! Caso vc não tenha isto em maõs, continua valendo o pioneirismo do paulistano Alexandre Levy (inspirado num poema de Julio Ribeiro), cujo “Samba” (na verdade um lundu sinfônico) é justamente de 1890… agradeço o retorno!
  • Armistrong Souto |

    21/02/2012

    Funk? Não seria: Fuck? Pois, não passa disso. É tão pobre, tão raso, tão lixo. Estou indignado comigo por haver perdido meu tempo enviando este comentário. Cultura? Hahahahah. Façam-me rir!
  • rodrigo sem nome completo |

    03/03/2012

    Recomendo que reze esta oração antes de dormir, Márcia:
    “Que o Céu nos livres dos primeiros romances que são escritos porque um jovem aspira ao prestígio de ser romancista e não porque tenha algo a dizer!
    Que o Céu nos livre, igualmente, dos ensaios matemáticos que sejam corretos e elegantes, mas destituídos de corpo e espírito.
    Que o Céu nos livre, sobretudo, do esnobismo que não somente admite a possibilidade desse trabalho apoucado e maquinal, mas deblatera, com espírito de arrogância depreciadora, contra a competição de vigor e ideias, onde quer que se possam encontrar”!
    (Wiener, 1950)
  • Lira Dolabella |

    03/03/2012

    O academicismo é o senso comum da academia. Essa menina, com todo o seu moralismo elitista – a intelectualidade classe média – faz parte do grupo “acadêmicos do senso comum” (grande sucesso na mída não massiva, atenção, não massiva). Mas dessa vez eu acho que ela estava fora do juízo, talvez cheia de anti-depressivos na cabeça. Insônica por dilemas que o analista não conseguiu resolver (não são todos os mortais que chegam lá, né?).
  • Leviatan Humano |

    24/03/2012

    Concordo com a Srta. Marcia Tiburi,
    Como deve aceitar que funk deva ser considerado uma forma de expressão positiva, canções onde a exploração sexual é escancarada e que não fogem dos ouvidos de ninguém. Essa pornografia livre para que todos devam participar é imposta (digo isso pq moro em uma) na favela. Culturalmente imposto na comunidade o Pancadão, Proibidão ou Putaria, impõe suas regras de aceitação, não permite outras manifestações na periferia.
    Aos Mc’s
    Vou comer sua b
    Vou fu o se c
    Me digam onde esta a arte nisso?
    Abraço a todos
    Parabéns Srta. Marcia Tiburi
  • gley barbosa |

    29/05/2012

    A reciclagem do lixo Tiburiano.
    Pós Marcha das Vadias me sinto liberta suficiente para falar de um assunto que me incomoda.
    Já ouvi muitas vezes sobre a relação do Funk e a degradação do corpo da mulher… Críticas quanto a falta de consciência social inserida no contexto do funk são recorrentes…
    Até ouvi que ele era o “lixo( o resquício de revolta) da favela que chegava aos narizes da burguesia” . Depois da última, a obrigação de manifestação enquanto mulher oriunda de periferia foi de tirar o sono, literalmente!
    Ai fiquei refletindo acerca de manifestações musicais que têm um cunho social em paralelo
    -me veio o Punk, na cabeça…
    O Punk surge na classe baixa inglesa como uma das respostas a crise do capitalismo do pós-guerra. Crise essa que custou desemprego e exploração ainda maior daqueles que não podiam exigir muito do mercado; afinal era muito mais justificável não respeitar direitos trabalhistas para mulheres, negros e etnias menos favorecidas do que para o homem branco. Pelos motivos “óbvios” do patriarcado branco, nosso veeelho conhecido. Esse mesmo Punk é marcado pelo principio do “faça-você-mesmo” que grita contra a elitização da música e dialoga harmonicamente com filosofias niilistas.
    Daí voltando ao Funk, fazendo uma analogia percebo que há sim fatores comuns. A política do “todos podem fazer”, as origens em classes baixas, e a questão política….?
    Pois é, concordo em partes com o argumento da degradação. Quando a mulher se encontra numa situação de exposição do seu corpo como objeto de manobra masculino, isto de fato é um problema. Pois sua imagem é coisificada PELO homem e para o prazer do homem.
    Mas percebo em outra medida que no momento que são as mulheres donas das suas letras de funks, e que por meio dessas, questionam a submissão ao trabalho doméstico e a prisão da liberdade sexual da mulher. Os princípios de segmentos feministas estão ai tão presentes quanto na queima dos sutiãs.
    A sociedade está a todo tempo crucificando a mulher do funk que se expõe, que goza, que anseia liberdade dentro da sua cultura. Essas mulheres sobem em um palco e gritam que são putas e não querem ser mais “as empregadinhas”.
    A lógica é simples: Se é pra nos tratar como coisas, nós seremos coisas. Mas coisas de nós mesmas. Meu corpo pode até ser um objeto de consumo, mas ele é meu. Eu vou vendê-lo do jeito e pra quem e quando EU quiser.
    Se este não é o feminismo ideal (se é que ele existe) construído dentro da academia, na periferia ele significa a possibilidade de se sofrer um estupro corretivo ou ter os seios cortados enquanto se espera o ônibus na parada ao lado de casa. Penas,possíveis, para aquelas que se “comportam” como homens ou por não quererem transar com determinado individuo do sexo masculino quando este acha que ela é puta, vadia ( e todas aquelas denominações que eles nos dão, quando a gente dá pra quem queremos).
    “Resquício de revolta?lixo?”…..o que vocês acham minhas caras?!
    Realmente, Simone de Beauvoir não é a autora de livros de cabeceiras das mulheres da classe baixa (muitas vezes nem das mulheres de classes altas e medias). Por diversos motivos:
    analfabetismo, educação ruim , falta de possibilidade de comprar o livro com o salário de merd… que recebem, falta de tempo.
    Porque!? A realidade, a cultura da classe baixa é diferente das demais assim como o caso das mulçumanas que quando dirigem correm até risco de vida e mesmo assim estão lá marcando suas posições como feministas.
    A construção do feminismo em cada cultura foi marcada pelos seus degraus de ascensão
    com a nossa não vai ser diferente.
    Concluindo meu desabafo espero não ouvir “analises” preconceituosas de pessoas que não fazem ideia do que é viver na periferia , principalmente porque querendo ou não hoje faço parte desse mundo “Cult” que a universidade nos insere e que tem coisas muito legais mas que volta e meia encontramos uns e outros com discursos rebuscados mas preconceituosos.
    E agora não só sinto que tenho o direito de descer até o chão, mas tenho dever para com os meus princípios, no entanto isso não dá o direito de ninguém achar que minha vontade deve ser desrespeitada.
  • Cleusa Rizério |

    06/06/2012

    Caríssima Márcia Tiburi, vejo que suas incursões nos mais variados e contemporâneos temas sociais, sexuais, musicais, e todos intrinsicamente ligados filosoficamente, pois o simples pensar e existir resulta como premissa uma filosofia.
    O seu texto está belissimamente escrito e argumentado pois o olhar de uma filósofa sobre uma realidade transparente, é tão verdadeiro como o olha de outra pessoa qualquer, simples, sem instrução formal mas com lógica e pensamento firme de como realmente a cultura/arte, ou mais especificamente sobre o funk aqui retratado pela professora, nos remete a concordar com o escrito pelo simples fato de conseguirmos enxergar nele a coisificação, o sexismo vulgar sobre a mulher e por aí vai.
    Uma observação pessoal e vai aí como um reforço para que você continue se colocando sempre sobre os variados temas, é que de suas opiniões atingem e incomodam muito alguns que não tiveram a mesma oportunidade de mídia e transparência que a professora conseguiu. Parabéns e não se incomode com a oportunidade de ágora e de palco que sua inteligência provoca.
  • Silvia Maria |

    07/06/2012

    Prezada Márcia.
    Gosto muito do que você escreve. É uma visão lúcida da realidade, que a academia não deixou que ficasse nublada pelas múltiplas visões de teóricos. À você, estas diversas interpretações caem bem, pois se somam às suas. Em outros, mostram que determinadas pessoas não conseguem enxergar um palmo além dos livros que leem, sem apropriar-se dos conhecimentos e agregá-los à luz própria e compará-los com a realidade.
    Concordo com a Cleusa Rizério. A sua inteligência provoca e incomoda.
  • Val Pessoa |

    14/06/2012

    Boa Noite,
    Excelente espaço para filosofar!
    Vou adicionar o que é obvio ao tópico, toda classe social, já que a sociedade em geral gosta de ser diferente…
    …os consumidores desta tal pornografia “proibidão”, recebem de uma forma que podem tanto aceitar ou não todos temos barreiras que podemos utilizar e bloquear…
    …A periferia pode consumir tanto essa pornografia como “uma pornofrafia mais sofisticada” uma parte do sertanejo que está na modinha, que usa palavras menos violentas ou sinceras e fortes como o proibidão…
    Assim como o proibidão a modinha sertanejo e antiga modinha axé, usam gestos sexuais, subliminares, que para as pessoas fala mais que as palavaras forte do proibidão, pois em qualquer pais, gestos conseguem ser interpretados facilmente, sendo assim, todas as classes precisam consumir algo…
    A periferia não é a única “classe”/local que recebe pornografia que agride, ela está em todo o lugar, de formas desfarçadas, mais sutis, delicadas.
    Abraços!!!
  • cristina |

    19/11/2012

    Não sou da favela do Rio. Mas sou obrigada a ouvir essas “batidas” (desculpem-me os fãs, mas é o máximo que se pode dizer desse gênero. “música” seria exagero). Não fui criada para ser preconceituosa; meus pais simplesmente me ensinaram que eu deveria refletir sobre o que eu escolho para mim. Ao me deparar com o Funk – admito que algumas vezes seus autores procuram passar uma mensagem, o que é bom e deveria acontecer com todos eles – me coloquei a pensar, porque uma garota de 14 anos (às vezes menos) se presta ao papel de rebolar até o chão sendo chamada de puta ou de cachorra? Ela não tem um marido opressor de quem quer se libertar, não tem nem vida sexual (ou pelo menos não deveria ter, até ser formada mentalmente para isso.). Então eu pergunto: onde está a cultura, a demonstração de pensamento nisso? Onde está o valor em frases nojentas como “rebola na p*ca?” E aquele outro, que fez tanto sucesso, o tal de Créu? Se é para fazer uma música que não seja “de elite”, que faça, mas ao menos faça isso direito. Só porque não é de elite não tem que falar nada de bom? Infelizmente isso não acontece apenas com o funk, tem acontecido com o sertanejo, com o axé, com o forró… Todos os ritmos que são feitos para as “classes baixas” não tem conteúdo intelectual. Será que é porque eles acham que pobre só entende e só gosta de porcaria? Isso é um preconceito e as pessoas deveriam perceber isso, ao invés de engolir essas baboseiras e ainda achar ruim quando alguém fala mal.

Vídeos interessantes para pesquisa funk

NEGRIARA
































MC _ BIANA - FUNK MAIS PESADO !!!! (PROIBIDO PARA MENORES DE 18 ANOS)











FUNK CONSCIENTE - Recalcadas !!!






AS PATROAS ! E OS PATRÕES !


 

















Musical conta história de 4 décadas do funk no Brasil

NEGRIARA

                                          SÃO 40 HITS'

Lista vai de James Brown ao MC Koringa, s

Dia em que Claudinho e Buchecha gravaram de cueca vira cena na peça.


Autor Pedro Monteiro (de fone) e os outros atores do espetáculo 'Funk Brasil' (Foto: Divulgação / Andrea Rocha / ZBR)Autor Pedro Monteiro (de fone) e os outros atores da peça 'Funk Brasil'
No meio da década de 1990, a dupla emergente no cenário funk carioca Claudinho e Buchecha chegou para gravar pela primeira vez com o já popular DJ Marlboro. Vestidos com jaquetas, correntes e outros acessórios, causaram ruídos no som ao dançarem no estúdio. Como solução, veio o ordem inusitada do anfitrião — quase um trote nos “calouros”: teriam que continuar a gravação só de cueca. "Marlboro é um sacana. Ainda ficou ameaçando que ia mostrar as fotos para todo mundo", lembra Buchecha, aos risos.
A história, confirmada com orgulho pelo DJ, é uma das muitas que conduzem o musical “Funk Brasil – 40 anos de baile”, que estreia nesta quinta-feira (9) no Teatro Miguel Falabella, na Zona Norte do Rio de Janeiro. De forma cronológica e ao som de 64 hits, o espetáculo coescrito por Pedro Monteiro — que também atua — e João Bernardo Caldeira, com direção de Joana Lebreiro, narra a trajetória do ritmo a partir dos Bailes da Pesada de Big Boy e Ademir no Canecão, no início da década de 1970, com base no livro "Batidão — Uma história do funk", de Silvio Essinger.
"Vou me emocionar bastante [com a peça] porque que vou ver minha história. Estou com 20 anos de funk, metade disso aí eu faço parte", comenta Buchecha, que era pagodeiro e foi convencido pelo parceiro Claudinho (1975-2002) a fazer funk e participar do Festival de Galeras no Clube Mauá de São Gonçalo, no início dos anos 1990 — ficaram em terceiro lugar com "Rap da bandeira branca" em 1993 e venceram com "Rap do Salgueiro", dois anos depois.
A dupla é representativa da década que consolidou o funk carioca, em movimento iniciado a partir do lançamento do CD "Funk Brasil", do DJ Marlboro, em 1989. "Sinto orgulho de ver que a galera não está deixando a peteca cair. Acho que o funk já fincou as bases e está muito bem quisto. Não ficou estagnado como um ritmo só para suburbano", acrescenta Buchecha.
De fato, o estilo que nasceu nas favelas, dando voz às comunidades, conquistou fãs em todas as classes e venceu o preconceito. Antes restritos aos bailes e às vezes vinculados ao tráfico, hoje os hits fazem parte até de trilha sonora de novela, caso de "Pra me provocar", do MC Koringa, tema da "piriguete" Suelen, personagem de Ísis Valverde em "Avenida Brasil".
"Foi através do funk que eu conheci a favela pela primeira vez. Tinha 15 anos, por volta de 1992. Foi o momento em que estourou o 'alô Pirão, alô alô Boavistão'", lembra Pedro Monteiro, em referência ao "Rap do Pirão", do MC D'Eddy.
Pedro, que já rodou o país com a peça "Os ruivos" e fez sucesso em um comercial de cerveja no qual contracena com Beto Barbosa vestido com um blazer e uma pochete, ao som de "Adocica", teve a ideia de realizar o espetáculo em 2007, ao assistir a performance na Estação Leopoldina, na Zona Norte do Rio.
"Fiquei olhando para aquilo e vi que não tinha nada a ver com quem frequentava o vagão do trem. Queria fazer alguma coisa para aquelas pessoas. Aí veio a luz de contar a história do funk", explica. "É como se fosse em um baile mesmo, ninguém sai de cena."
"Funk Brasil - 40 anos de baile" fica em cartaz até 30 de setembro, de quinta a domingo, às 18h. Os ingressos custam R$ 30. Além de Pedro, estão no elenco Alex Gomes, Cintia Rosa, Dérik Machado, Julia Gorman e Marcelo Cavalcanti.
Com base no livro de Silvio Essinger, no espetáculo e em entrevistas com nomes representativos de cada uma das quatro décadas do funk no Brasil, o G1 listou 40 hits para relembrar essa história.
Funk 1970 (Foto: Editoria de Arte/G1)
Newton Duarte, o Big Boy, e Ademir Lemos: os criadores do Baile da Pesada (Foto: Reprodução) 
Newton Duarte, o Big Boy, e Ademir Lemos: os
criadores do Baile da Pesada (Foto: Reprodução)
1. "Sex machine" - James Brown
"Essa música é a mais famosa de todo o movimento, a que mais emplacou. Aqui no Brasil ela chegou bem na época dos bailes, era a música do momento. Tocou em rádio, ultrapassou os limites da black music para se tornar uma música pop", explica Leandro Petersen, filho do Big Boy, um dos responsáveis pela pesquisa musical da peça e produtor da festa Soul, Baby, Soul. "As pessoas têm mania de falar que o funk tem conotação sexual e costumo citar essa música como exemplo que é uma questão muito mais de movimento. Também tinha uma coisa de mau gosto para a sociedade. É mais ou menos a mesma coisa que falar ' ficando atoladinha' hoje. Só evoluiu dentro do mundo. Faz parte da questão do funk mesmo, do pobre, do excluído, que fala de conotação sexual, de violência. E esse é o primeiro funk de referência, que marcou uma geração", acrescenta o herdeiro do Big Boy.
2. "Mandamentos black" - Gerson King Combo
3. "Think (About it)" - Lynn Collins
4. "Podes crer, amizade" - Tony Tornado
5. "Do they funky chicken" - Rufus Thomas
6. "Thank falettinme be mice elf again" - Sly and the Family Stone
7. "(I got) So much trouble in my mind" - Sir Joe Quarterman and Freesoul –
8. "Givin up food for funk" - The JBs
9. “Soul power 74” - James Brown (feat. Maceo Parker)
10. "People get up and drive your funky soul" - James Brown
Funk 1980 (Foto: Editoria de Arte/G1)
Capa do disco 'Funk Brasil', o primeiro da série do DJ Marlboro (Foto: Divulgação) 
Capa do disco 'Funk Brasil', o primeiro da série do
DJ Marlboro (Foto: Divulgação)
11. "Melô da mulher feia" - Abdulah
"É importante porque foi a primeira do funk nacional. Foi a partir dela que nasceu o movimento no Rio. Foi a primeira em português, cantada pelo Abdulah [em uma versão a partir de 'Do wah diddy', da 2 Live Crew, também na lista abaixo]. Foi a partir dali que tudo começou", explica o DJ Marlboro, que incluiu a faixa no primeimro  "Funk Brasil", de 1989, que abriu as portas para a explosão do funk na década de 1990.
12.  "Planet Rock" - Afrika Bombaataa
13. "Do wah diddy" - Live 2 Crew
14. "Supersonic" - JJ Fad
15. "Freakazoid"  - Midnight Star
16. "Get down on it" - Kool and the Gang
17. "Don't stop the rock" - Freestyle
18. "Olhos coloridos" - Sandra de Sá
19. "Spring love" - Stevie B
20. "They're playing our song" - Trinere
Funk 1990 (Foto: Editoria de Arte/G1)
Claudinho e Buchecha gravaram primeiro CD em 1996 (Foto: Divulgação) 
Claudinho e Buchecha gravaram primeiro CD em
1996 (Foto: Divulgação)
21. "Rap da felicidade" - Cidinho e Doca
O famoso refrão "Eu só quero é ser feliz / Andar tranquilamente na favela onde eu nasci" ecoou com força em uma época marcada pelo comando do tráfico nas comunidades do Rio. "Acho que essa frase resume tudo", diz Buchecha, criado em uma favela de São Gonçalo, na Região Metropolitana da cidade. "É um hino. Todos cantavam essa música. É o grito do povo. É o que todo nós vivemos", acrescenta.
22. "Rap do Borel" - William e Duda
23. "Rap do Salgueiro" - Claudinho e Buchecha
24. "Nosso sonho" - Claudinho e Buchecha
25. "Rap da diferença" - MC Dollores e MC Marquinhos
26. "Rap do solitário" - MC Marcinho
27. "Rap do Silva" - MC Bob Rum
28. "A distância" - Márcio e Goró
29. "Rap do Pirão" - MC D'Eddy
30. "Me leva" - Latino
Funk 2000 (Foto: Editoria de Arte/G1)
Tati Quebra-Barraco: letras de sexo sem rodeios  (Foto: Divulgação) 
Tati Quebra-Barraco: letras de sexo sem rodeios
(Foto: Divulgação)
31. "Baile da Pesada" - Fernanda Abreu
A música que resume a história do movimento funk no Rio foi lançada pela cantora em 2000, no álbum "Entidade urbana". "É a que descreve melhor os bailes destes 40 anos de funk e soul", opina Mario Henrique, o DJ Peixinho, que acompanhou todo o processo de evolução do ritmo no país — é, inclusive, um dos personagens da peça — e até hoje ainda toca em festas como a Soul, Baby, Soul.
32. "Se ela dança, eu danço (Ela só pensa em beijar)" – Mc Leozinho
33. "Cerol na mão" - Bonde do Tigrão
34. "Adultério" - Mr. Catra
35. "Glamurosa" (1992) - Cidinho e Doca
36. "Boladona" - Tati Quebra Barraco
37. "Créu" - MC Créu
38. "Tremendo vacilão" - Perla
39. "Chantilly" - Naldo
40. "Pra me provocar" - MC Koringa

O famigerado funk carioca em livro sem preconceito (...)

NEGRIARA

Entrevista com Silvio Essinger, autor do livro Batidão - Uma História do Funk (editora Record, 2005)
 
Felipe Tadeu - Na orelha do teu livro está escrito "antes de mais nada, um livro para quem não gosta de funk". Apesar da crescente popularização do gênero, o funk carioca ainda é tabu?

Silvio Essinger- Claro, muita gente ainda acha que é música de baixa qualidade, de bandido, música tosca. Apesar de ser uma manifestação cultural legítima, - e é música brasileira -, ainda enfrenta uma série de preconceitos. Ainda mais porque não é música muito veiculada pelas grandes gravadoras, que só chega a ser aceita por elas quando está estourada nacionalmente. Quando um grupo como o Bonde do Tigrão chega à Sony, é só a ponta do iceberg, porque há muito mais gente embaixo.

FT- Como foi que você começou a gostar de funk carioca? Qual foi o primeiro disco do gênero que você comprou e quando isso aconteceu?

SE- O primeiro disco que eu tive não foi comprado, eu ganhei em 1994 quando trabalhava na Tribuna da Imprensa (jornal do Rio de Janeiro). Eu recebi o disco Funk Brasil, do DJ Marlboro, e naquela época eu já tinha uma certa simpatia pelo funk, mas ainda não o levava a sério. Nesse cd tinha uma música muito boa, o Rap do Surfista, do Geração, um grupo que não existe mais e do qual dois integrantes dele viraram PM (guardas da Polícia Militar). Aliás, esse tipo de história é muito comum no funk. Quando um grupo não dá certo, um cara vira crente, o outro PM, ou então é um integrante que entra para o tráfico de drogas. Como o funk não é uma opção profissional muito segura, há sempre histórias tocadas pela tragédia, como foi o caso da dupla Márcio e Goró, que conseguiu até uma certa notoriedade. Quando o negócio deles despencou, o Goró se matou (com um tiro no ouvido, na frente do pai). Mas voltando ao disco do Marlboro, tinha lá uma música do Geração que fazia um paralelo entre o surfista da Zona Sul (parte mais rica da cidade do Rio), que era queimado de praia, com o surfista ferroviário da Zona Norte, que era queimado por causa de um fio de alta tensão (no Rio de Janeiro, muitos jovens das áreas mais pobres costumam praticar o hábito de viajar em cima do teto dos trens elétricos para não pagar passagem e se arriscar numa aventura, numa trágica versão dos chamados esportes radicais). Enquanto o surfista rico come mamão no café da manhã, o outro, quando muito, toma café com pão. A partir dessas comparações, eu fiquei atento naquilo ali. O funk carioca não era aquele macaqueamento do som de Miles Davis como eu imaginava, tinha uma coisa original nele. No ano seguinte, em 95, veio forte o funk Rap da Felicidade, de Cidinho e Doca, que virou uma espécie de hino do Rio de Janeiro. Depois, mais tarde, eu comecei a comprar discos em bancas de jornal, porque você não os encontrava nas lojas normais, só nas bancas, ou no camelódromo (área ocupada por vendedores ambulantes de mercadorias a preços mais acessíveis). Aos poucos eu fui fazendo minha coleçãozinha.

FT- E qual foi o primeiro cd?

SE- Acho que foi um da equipe Furacão 2000, ou da Pipo's, lá por volta de 1997 ou 98. E a primeira vez que fui a um baile funk foi depois de'u ter assinado o contrato para escrever o livro, em 98.

FT- Um dos capítulos mais interessantes do teu livro é o que trata do surgimento do movimento Black Rio na década de 70. Você que cresceu na Zona Norte do Rio, que lembranças guarda desse tempo? Você tinha algum ídolo musical negro, sendo um guri branco de classe média?

SE- Eu não tinha muita percepção dessa época não (Silvio nasceu em 1970). Eu lembro muito das faixas que chamavam para os bailes, aquelas em que vinha escrito "Damas grátis". Mais tarde é que vim conhecer o Gerson King Combo (espécie de James Brown brasileiro). Mas o que ficou mais em mim foi aquela atmosfera dos bailes, apesar de não ter ido a nenhum deles. Eu morava perto do Melo Tênis Clube, na Vila da Penha, onde havia algumas festas, mas a música mesmo não me marcava não. Os nomes é que eram fortes, como Gerson King Combo, a equipe Cashbox. As lembranças mais remotas que eu tenho da música funk é de quando eu já estava na Zona Sul, e assistia na televisão o Som na Caixa, que era o "programa oficial das equipes de som do Rio de Janeiro".

FT- E Tony Tornado, um dos pioneiros da cena black local?

SE- Eu só o conheci quando ele se tornou ator. Eu só soube que ele já tinha sido músico quando li que ele caiu do palco em cima de um espectador, que ficou paraplégico. Bem depois é que descobri que ele era uma força da black music no Brasil. Eu tentei entrevistá-lo para o livro, mas não tive resposta dele.

FT- O disco de Gerson King Combo é realmente muito bom.

SE- É! É black music made in Brazil muito bem feita. Voltando às faixas que chamavam para os bailes, elas ainda são muito eficientes até hoje, porque a divulgação dos bailes funk nunca saem nos jornais. Eu fico sabendo deles quando passo perto da subida do Morro Dona Marta (no bairro de Botafogo, Zona Sul do Rio), ou pela boca da Rocinha (maior favela da América Latina, com cerca de 300 mil habitantes), ou perto da Cidade de Deus (Zona Oeste). Inclusive eu fiz esse circuito do funk todo de ônibus, de carona, ou de van (carros maiores, que transportam passageiros para áreas menos servidas por ônibus). O livro serviu também para que eu conhecesse melhor a cidade do Rio.

FT- O samba e o funk carioca são grande ícones da cultura negra das urbes brasileiras. Você concorda que os apelos do funk junto às novas gerações sejam mais irresistíveis pelo fato dele estar mais associado às inovações tecnológicas?

SE- Sim, e também pelo fato de não ter nenhuma tradição a defender. O funk carioca só tem quinze anos de história, e mesmo que hoje já se fale numa "velha guarda do funk", quem são esses veteranos? São caras que, às vezes, não têm nem 30 anos de idade. Por não ter tradição a defender, isso deixa a música livre, cada um faz o que quer dela. Você tanto pode falar sobre o celular, sobre a marquinha do biquini, sobre a Solange do Big Brother Brasil, dela cantando We Are The World com o inglês todo errado e transformar isso num novo funk. Você pode fazer também um funk sobre as armas, ou um funk gospell. Há todo um campo livre para a inovação.

FT- O que impressiona também no funk é do palco estar aberto para o espectador do baile que queira subir e cantar alguma coisa. Se ele tiver sorte, semanas depois já está sendo cantado por todo mundo.

SE- Na cena musical tradicional não acontece de aparecer tantos artistas e tão rapidamente como no funk. Por exemplo, eu entreguei o livro à editora em outubro do ano passado e, até ele ficar pronto, aconteceu tanta coisa no funk que já dava até apara fazer outro capítulo. Hoje a sensação do momento é um MC (mestre-de-cerimônia) de Madureira chamado Colibri, que é ex-sambista.

FT- A perseguição aos bailes funk são um sinal da intolerância da sociedade brasileira para com esta forma de lazer e manifestação cultural das populações mais pobres. Você sabe de alguém do universo do funk carioca que tenha processado a mídia ou alguém do poder público por discriminação racial?

SE- Não. Embora haja gente como o DJ Marlboro ou o DJ Catra que são de gritar, eu acho que a perseguição não é racial. É contra o pobre em geral, é um problema de classe social, porque no funk tem de tudo. Há uma maioria de negros na cena, mas também muitos brancos, nordestinos. O funk é uma prova de nossa diversidade racial, inclusive ele é o tipo de música que melhor discute identidade sexual. Você vê os homens fazendo suas bravatas machistas, as mulheres respondendo e os gays entrando junto também, com nomes como Lacraia e Garota X. O problema de discriminação contra o funk é porque ele chegou numa época em que os bailes tinham virado campos de guerra, com os chamados "baile de corredor". O governo e a lei agiram de forma a acabar com os campos de batalha e não como discriminação contra ele. Era uma degradação das festas, em que já estava morrendo gente e alguma coisa precisava ser feita. A partir disso, o funk voltou a procurar refúgio nas favelas, que é onde ele voltou a prosperar.

FT- Você passou por alguma situação delicada com alguém do tráfico durante as pesquisas para o livro?

SE- Não. Eu chegava nos morros, via o pessoal armado, os traficantes, mas nada que impedisse o meu trabalho. Eu estava lá para falar de funk e subia com os próprios MC's para entrevistá-los. Era muito óbvio que eu não era morador do morro, sendo que até algumas vezes eu subia com um gringo junto (risos).

FT- Você cita Fernanda Abreu como embaixadora do funk carioca. Ela é realmente considerada "de casa" quando sobe ao palco de um legítimo baile funk nos subúrbios do Rio?

SE- Eu nunca a vi no palco de um baile, mas ela tem muito boas relações com o DJ Marlboro e é uma figura muito popular no Rio de Janeiro todo. Ela não é considerada funkeira, mas é vista como "garota sangue bom". Ela jamais vai tirar uma onda de que é do morro. Ela cantou funks no festival Rock in Rio e no primeiro disco dela, de 1990, Marlboro está lá. Não tem como negar que ela é uma embaixadora do funk carioca. Talvez ela nem se desse bem sobre o palco num baile funk, mas de qualquer forma ela é a garota que leva as coisas para a Zona Sul.

FT- Qual é o melhor letrista do funk carioca?

SE- É o Catra.

FT- E o melhor arranjador e o melhor cantor?

SE- Em noção de arranjos, nós teríamos que ver quem é o melhor programador. Hoje em dia você pode falar de um coletivo do funk. As coisas mais interessantes do funk carioca são feitas hoje coletivamente. Quanto ao melhor cantor, acho que é a Dayse da Injeção. Ela também é nova por sinal e não chegou a entrar no livro, e é um novo talento da Cidade de Deus. Aliás, ela não é tão nova assim porque começou com a Tati Quebra-Barraco, mas só agora que está despontando. Ela canta bem, uma exceção no mundo dos MC's, onde se ganha no grito.

FT- Você vê alguma semelhança entre o funk e a axé music?

SE- Muito do elemento erótico, pornográfico do funk vem da axé music. O funk consegue mimetizar muito os outros estilos, se aproximando muito deles.

FT- Antes de escrever Batidão - Uma História do Funk você tinha publicado um livro sobre punk (Punk - Anarquia Planetária e a Cena Brasileira), da Editora 34. O que o funk e o punk teriam em comum?

SE- A idéia do "faça você mesmo". O momento inicial do punk é "vamos abolir as regras", e o funk carioca também não está nem aí para elas.

FT- E a penetração do funk junto às comunidades do Capão Redondo, em São Paulo, de onde saiu o grupo Racionais, banda que canta textos ultra-pesados sobre a hecatombe social brasileira?


SE- Eu nem sei se o pessoal ouve funk no Capão Redondo, mas os caras dos Racionais ouvem. Tenho um amigo que já viajou no ônibus deles e eles estavam lá, escutando funk carioca. Por mais sisudos que eles sejam, eles têm que ter um momento de descontração na vida deles.

FT- Se formos comparar o chamado "funk consciente" com as letras dos Racionais, o que os funkeiros escrevem parece talquinho Johnson, não acha?

SE- O rap dos Racionais é tipo filme de terror. Os caras parecem que se esforçam para ver quem consegue botar as histórias mais tenebrosas que existem na música. Eles são a fratura social irreparável, estão no meio de uma guerra. Para eles, não vai ter paz nesse mundo e São Paulo jamais vai se reconciliar com a sua periferia. Já o "funk consciente" não, ele traz uma pitada de esperança de que as coisas vão mudar. Os quatrocentos quilômetros entre as duas cidades, Rio e São Paulo, e as singularidades de cada uma delas geraram essas visões distintas.
Felipe Tadeu
Brasilkult@aol.com

HISTÓRICO DO CONJUNTO MORRO ALTO

NEGRIARA


A
ção da FAMEMG impede despejo de 1000 famílias em Vespasiano-RMBH
Conheça a Historia de Luta dos Moradores dos Conjuntos Morro alto e caieiras
 
Histórico:
Na década de 80 a COHAB deu inicio a construção de um empreendimento imobiliário, de 1230 Unidades Habitacionais, destinadas a famílias de baixa renda, localizado na cidade de Vespasiano-RMBH utilizando para a construção recursos do BNH e do Fundo Estadual de Habitação.
Neste mesmo período a cidade de Belo Horizonte passava por um dilema, o que fazer com a população que estava no caminho do crescimento da cidade e com os desabrigados?
Existiam projetos de desenvolvimento a serem implantados. A aberturas da Av dos Andradas interrompida pela favela do Perrela e as vitimas das chuvas, inúmeras famílias oriundas principalmente das favelas dos Gorduras da barraginha.
A Prefeitura então realizou uma parceria com o Estado para reassentar estas famílias tendo como objeto as casas construídas em Vespasiano pertencentes a COHAB.
As famílias não tiveram escolha, foram removidas em alguns casos como o dos moradores da favela do Perrela foram retirados a força de suas moradias, que foram imediatamente demolidas, colocados em caminhões e levados para o Conjunto Morro Alto e Caieiras, sem receberem as indenizações devidas.
Já em Vespasiano estas mesmas famílias viveram o horror da falta de infra estrutura dos conjuntos citados e do completo e absoluto abandono do poder publico que: não garantiu a eles o acompanhamento social necessário para vencer as dificuldades. Muitos não tiveram condições de permanecer, pois trabalhavam em Belo Horizonte, muitas mulheres, chefes de família que tinham conseguido constituído rede de solidariedade nos comércios locais, em que se comprava fiado garantindo a sobrevivência quando não se tem emprego fixo, e com a vizinhança quando não existem creches publicas, escolas linha de ônibus e todos os outros serviços básicos necessários a sobrevivência humana.

Após chegarem e serem estalados cada um em sua nova moradia pela Prefeitura de BH, as famílias foram procuradas pela COHAB, que apresentou a cada uma delas um contrato de compra e venda dos imóveis.

Este contrato estipulado em 344 meses para pagamento determina que: o não pagamento de três prestações implicava em devolução dos imóveis.
É bom que se diga que estas famílias não tiveram o direito às informações com antecedência sobre os contratos, e que pela época da realização dos despejos ajuizados pelo poder publico era e ainda é alto o índice de analfabetos entre populações de baixa renda.
Um outro fator relevante que deve ser avençado é que: em épocas de eleição figuras políticas de peso em nosso estado incluindo presidentes da COHAB fizeram reuniões com os moradores onde foram orientados a não pagar as prestações pois os imóveis seriam doados pelo Governador do Estado.

Ignorando todos estes determinantes sociais importantes para se definir um empreendimento realizado com recursos públicos destinados exclusivamente para a eliminação de favelas e aglomerados em condições sub-humanas de habitação e a famílias sem moradia e de baixa renda, no ano de 2004 a COHAB propôs ação de despejo contra os moradores.

Fator agravante é que todas as ações postuladas pela COHAB correram na Justiça comum do Fórum Julio Garcia em Vespasiano, sendo os moradores citados por edital publicados no Minas Gerais, como se estivessem residindo em local incerto e não sabido, não obstante pertencentes ao plano habitacional da própria COHAB.

Os primeiros dos mil despejos que a COHAB iria realizar no dia 26 de junho bateu de frente com a mobilização dos moradores em ação organizada pela FAMEMG..

Com a ação conseguimos suspender todas as outras ações propostas pela COHAB e estabelecer uma comissão para realizar um estudo socioeconômico das famílias para renegociar suas dividas com a COHAB.

Participação popular
Diretora da FAMEMG

Sexualidade, machismo, rap e funk

NEGRIARA
 Por: Eleonor Alves
 Certas tentativas de definição do ato sexual se tornam uma espécie de metafísica, a qual analisa fenômenos sem considerar-se o contexto social em que estes ocorrem; como conseqüência, concepções historicamente determinadas são aceitas como naturais. 


No livro The Sadeian Woman – An Exercise in Cultural History, Angela Carter demonstra como o sentido que se costuma dar às relações sexuais, considerado atemporal, está na verdade relacionado a um determinado momento histórico. Certas tentativas de definição do ato sexual se tornam uma espécie de metafísica, a qual analisa fenômenos sem considerar-se o contexto social em que estes ocorrem; como conseqüência, concepções historicamente determinadas são aceitas como naturais.

A definição de ato sexual a que a autora se refere é a idéia de simples preenchimento de orifícios. Não só para Sade, cujos textos são o objeto de análise do livro, mas também para o nosso imaginário coletivo, essa concepção é considerada a representação mais simples, a essência do que entendemos a respeito do ato sexual. Entretanto, nessa definição estão implícitos os papéis de passividade, desempenhado pelos seres de sexo feminino, e de atividade, desempenhado pelos de sexo masculino. Mesmo em relações homossexuais, cada um dos parceiros deveria representar um desses papéis descritos. Além disso, essa regra se aplicaria não só a relações sexuais entre seres humanos, mas também às que ocorrem entre animais, o que demonstraria o caráter universal dessa distribuição de papéis.

Essa concepção, entretanto, está relacionada aos papéis sociais desempenhados pelos homens e pelas mulheres em determinado momento histórico. As mulheres, que realizavam (e ainda realizam) tarefas ligadas ao âmbito privado, estariam em posição de submissão e passividade, o que seria transposto para seu papel no ato sexual. Os homens, por sua vez, destinados a tarefas de âmbito público, naturalmente deveriam cumprir o papel ativo da relação sexual.

Até hoje se verifica as relações de dominação e submissão no ato sexual em palavrões, do tipo “foder”, em que a posição de passividade, entendida como papel feminino tanto em relações heterossexuais quanto homossexuais, é utilizada para ofender ou mesmo para expressar uma situação de desvantagem, embora o uso desses palavrões não seja conscientemente relacionado ao seu sentido de origem todas as vezes em que são usados.

A idéia de que o ato sexual é um simples preenchimento de orifícios, enfim, esconde o contexto, as pessoas envolvidas, os valores de uma época, além de, traduzindo as palavras da autora, reduzir os atores do ato sexual a instrumentos de simples funções, em que a busca do prazer se torna, em si mesma, uma questão metafísica.

Nos dias atuais, a deturpação da sexualidade, reduzindo-a a funções, permite, no seu estado mais extremo, imaginar-se que o prazer pode ser adquirido isoladamente por meio de produtos eróticos, como se o próprio prazer fosse uma mercadoria, isto é, não seria mais necessário nem mesmo uma pessoa que realizasse um serviço sexual, como ocorre na prostituição; um objeto inorgânico seria suficiente para alcançar-se o prazer. Escondendo-se que esses produtos são fabricados com o intuito do prazer individualista, costuma-se dizer que estes serão utilizados por parceiros em uma espécie de jogo, o que apenas é uma possibilidade, e não uma regra.

Embora a redução da sexualidade a funções não tenha surgido a partir dela, a música funk que se desenvolveu no Rio de Janeiro reforça, por meio das letras, a banalização do prazer, em que o contexto social desaparece, em que o ser humano – dono de uma história própria, que faz parte de uma determinada classe social, que tem uma personalidade, que sofre e deseja ser feliz – é reduzido a um papel a ser desempenhado no sexo. Sem entender essas questões, as pessoas que defendem o funk como é hoje – pois nem sempre as letras eram escritas assim – acusam os críticos de moralistas, quando na verdade essa música apresenta os problemas descritos acima. Entretanto, “os críticos” não fazem parte de um mesmo grupo, nem necessariamente compreendem essa questão da mesma maneira apresentada neste artigo, portanto as críticas que se fazem são heterogêneas, as quais, por sua vez, também podem ser criticadas.

De certo tempo para cá, certas pessoas defendem que o funk seria uma maneira de libertação sexual das mulheres, porém essa é uma perspectiva masculina historicamente construída, uma vez que a deturpação da sexualidade foi um processo desempenhado pela atitude dos homens ao longo do tempo. Por terem dominado economicamente as mulheres em dado período histórico que ainda não foi ultrapassado completamente, os homens preocupavam-se mais com o seu próprio prazer do que com o das mulheres no ato sexual, comportando-se de maneira egoísta, o que somente era possível por estarem numa posição de dominadores – note-se que esse comportamento é muito semelhante ao das classes dominantes em geral ao longo da história. Ainda que a maioria dos avanços não tenha se generalizado completamente, as mulheres, após a invenção dos métodos anticoncepcionais, alcançaram certa liberdade por terem o controle de sua sexualidade, além de terem alcançado certa liberdade econômica, a qual permite que elas imponham-se nas relações sexuais para que os seus desejos sejam satisfeitos. Entretanto, com a banalização da sexualidade proposta inconscientemente pelo funk, as mulheres começam a comportar-se como homens no sentido historicamente determinado, isto é, pensando somente no seu próprio prazer, gerando individualismo, ainda que a mulher não esteja isolada de fato – fenômeno que se percebe em outras situações cotidianas.

Se compararmos o tratamento dessa questão no rap, dos EUA principalmente, e no funk brasileiro, perceberemos que este propõe que as mulheres se comportem de uma perspectiva “masculina”; aquele, por sua vez, defende a dominação do homem, como se percebe pela exaltação dos cafetões nas letras de músicas e nos videoclipes. Essa generalização, porém, é falsa, uma vez que não se trata do estilo de música, mas sim de quem a realiza. Tanto os cantores de funk quanto os rappers dos EUA defendem a dominação do homem na relação sexual; talvez a diferença entre os dois esteja na maior apresentação de contexto social no rap. Por sua vez, certas mulheres do funk e do rap propõem que as mulheres se comportem de maneira “masculina”, porém o pequeno acesso que se tem na mídia às rappers dos EUA já demonstra que uma suposta dominação das mulheres é algo difícil de acontecer, mesmo porque a participação feminina nesse tipo de música, tanto no funk quanto no rap, é muito menor quantitativamente. Isso explica, talvez, a tentativa de afirmação feminina por meio de valores masculinos tradicionais. Boa parte das mulheres desse meio artístico, porém, analisa a questão de outra maneira.

O funk só pode ser concebido como favorável às mulheres da perspectiva de que a sexualidade da mulher não é voltada estritamente à reprodução, porém isso não é novo, uma vez que Sade, por exemplo, que viveu entre os séculos XVIII e XIX, já entendia essas idéias numa época em que nem mesmo existiam os métodos anticoncepcionais. Limitar-se a isso, hoje, significa parar na história.

Este artigo não tem como objetivo culpar os homens ou as mulheres de qualquer problema, mas sim mostrar a relação dialética que existe entre os âmbitos público e privado. De certa forma, assim como em várias relações humanas atuais percebemos a dominação, a submissão e o individualismo, as relações sexuais também ocorrem da mesma maneira, são marcadas pela forma como a sociedade se organiza. Para a superação desses problemas, a sociedade inteira deve mudar, devem surgir um novo homem e uma nova mulher, como diz Alexandra Kolontai, o que somente é possível plenamente por meio da transformação da sociedade, por meio dos valores comunistas.

Corpos dos seis jovens mortos em chacina são enterrados em Nilópolis


 Avó do jovem Josias chora sobre o caixão do neto no enterro (Foto: Renata Soares/G1)


NEGRIARA

Amigos e familiares chegaram ao Cemitério de Olinda em cinco ônibus. Cortejo foi marcado por gritos de 'justiça' e lamentação dos parentes.

 


Após o velório ao longo da madrugada e da manhã desta terça-feira (11), em um ginásio municipal de Nilópolis, na Baixada Fluminense, os corpos dos seis jovens mortos na chacina ocorrida no Parque do Gericinó, em Mesquita, foram enterrados pouco depois de 14h. O grupo desapareceu no sábado (8) quando foi tomar banho em uma cachoeira próxima à Favela da Chatuba.
"Só quero dizer para esses vagabundos que isso não vai ficar impune. Se a polícia continuar na Chatuba, vai encontrar muitos corpos ainda", disse Sildis Vieira, pai do jovem Christian, de 19 anos, um dos dois mortos que permaneceram com o caixão fechado no velório, junto com Glauber Siqueira, de 17. Além deles, foram enterrados Victor Hugo Costa e Douglas Ribeiro, de 17 anos, Josias Searles e Patrick Machado, de 16 anos.
As vítimas foram encontradas na manhã de  segunda-feira (10), em uma área perto da Via Dutra, em Jacutinga. Eles estavam lado a lado, enrolados em lençóis, nus, amordaçados e com sinais de facadas e marcas de tiro.
Cerca de 400 pessoas, entre familiares e amigos, acompanham emocionadas ao velório. Algumas delas, como a mãe de Glauber, desmaiaram. A quadra do ginásio municipal ficou lotada. Polícia Militar e Guarda Municipal reforçaram a segurança.
Os corpos chegaram ao longo da madrugada. Às 6h30, cinco corpos já estavam sendo velados. O corpo de Douglas Ribeiro foi último a chegar.
Camisa usada por amigos que não quiseram se identificar (Foto: Renata Soares/G1)Camisa usada por amigos que não quiseram se identificar (Foto: Renata Soares/G1)
Parentes dos seis jovens mortos na chacina passaram a segunda no Instituto Médico-Legal (IML) do Rio, onde fizeram o reconhecimento dos corpos. No início da noite, carros da funerária e da Defesa Civil começaram a sair do prédio para levar os corpos dos rapazes para a Santa Casa. Um trabalho que terminou no começo da madrugada. De lá, começaram a sair para o velório.
Caixões de Victor Hugo e Josias sendo enterrados (Foto: Renata Soares/G1) 
Caixões de Victor e Josias (Foto: Renata Soares/G1)
O prefeito de Nilópolis, Sérgio Sessim, decretou luto de três dias na cidade pelas mortes ocorridas na região.
Investigações
As investigações da polícia apontam para a participação de pelo menos 20 traficantes na chacina, segundo o delegado Júlio da Silva Filho, titular da 53ª DP (Mesquita). De acordo com o delegado, além do assassinato dos rapazes, os criminosos também seriam os responsáveis pela morte do pastor Alexandre Lima e de um aspirante a PM. A polícia também investiga o desaparecimento de José Aldecir da Silva, que acompanhava o pastor na comunidade.
O delegado disse que todas as mortes foram comandadas por Remilton Moura da Silva Júnior, conhecido como Juninho Cagão, chefe do tráfico de drogas na Chatuba. Ainda segundo a polícia, há a hipótese de o PM ter sido torturado na área do parque pelo grupo criminoso.
Crimes separados
O delegado Júlio da Silva Filho informou ainda que o pastor e José Aldecir teriam sido executados por não atender à ordem dos criminosos de se afastarem do local no momento da execução do PM.
Segundo o delegado, a chacina dos seis jovens e a possível execução dos outros três homens são dois crimes separados. A polícia ainda está à procura de José Aldecir da Silva. Ele caminhava no Parque de Gericinó ouvindo música, ao lado do pastor Alexandro Lima.

detidos_operacao_chatuba_300 (Foto: Gabriel de Paiva / Ag. O Globo)Suspeitos são detidos durante ocupação policial na
Chatuba, no Rio (Foto: Gabriel de Paiva/Ag.O Globo)
Ocupação
Depois dos crimes do final de semana, foi iniciada na madrugada desta terça-feira (11) a ocupação da favela da Chatuba, em Mesquita, na Baixada Fluminense. A ação não tem prazo para acabar.
Veja onde foram encontrados os corpos dos seis jovens desaparecidos em Mesquita, no Rio de Janeiro (Foto: Editoria de Arte/G1)
Cerca de 250 policiais, entre homens do Batalhão de Operações Especiais (Bope), Batalhão de Choque (BChoque), Batalhão com Cães, do Grupamento Aero Marítimo e da Coordenadoria de Inteligência, vasculham a Favela da Chatuba desde a 1h15.
A polícia faz trabalho de revista e de aproximação com a comunidade para tentar chegar ao paradeiro dos traficantes. Policiais com cães farejadores também vasculham a área de mata da Chatuba em busca dos criminosos.
De acordo com o coronel Frederico Caldas, relações públicas da PM, "a partir dessa ocupação definitiva vai ser instalada uma Companhia Destacada, com efetivo de 112 policiais" na região. "É uma resposta imediata aos atos bárbaros que foram cometidos no final de semana", afirmou.
Informações obtidas através do Disque-Denúncia têm sido fundamentais para essa ocupação. Só na noite de segunda-feira (10) foram 12 ligações.

Trabalho doméstico: herança histórica do racismo e sexismo no Brasil

NEGRIARA

É sabido que existem alguns pilares que estruturam as desigualdades no Brasil. Este quadro que vivenciamos tem fortes traços marcados por dois elementos centrais na temática de desigualdade: sexismo e racismo. Além, obviamente, de outros elementos estruturantes para esse quadro, como a opressão de classe e a violência da imposição da heteronormatividade.
O papel histórico atribuído às mulheres sempre esteve relacionado ao espaço doméstico. Ambiente privado onde, destituídas da fala e de serem protagonistas de sua própria história, as mulheres ficavam à mercê das mais diversas formas de violência física, moral e psicológica, dentre outras. Ao quadro de construção de uma sociedade patriarcal e machista, soma-se a violência do racismo nesta representação, que por si só deveria gerar certo “desconforto” ou implicar em responsabilidades individuais e coletivas.
Nesse contexto, um tema de conturbada discussão se refere ao trabalho doméstico e mais especificamente às mulheres, que representam 95% das pessoas envolvidas nessa atividade, sendo que dessas 61% são mulheres negras (Fonte: PNAD, 2010). Além disso, das mulheres inseridas no mercado de trabalho, 17% estão no trabalho doméstico remunerado, o que representa em torno de 7 milhões de pessoas.
A reflexão que se traz a este quadro vivenciado pelas trabalhadoras domésticas se refere à herança histórica que a escravidão legou às mesmas. Nem é preciso uma profunda análise crítica para perceber a mentalidade da “benesse” que era concedida às trabalhadoras que tinham o “direito” de ficar na Casa Grande com os Senhores, acompanhar as Sinhás, servir de ama de leite, ser objeto sexual para a livre utilização de seus corpos pelos homens da casa e muitas vezes nem precisavam ficar na senzala com os demais negros escravizados. Afinal, do que elas poderiam reclamar? Perguntavam-se os senhores de negros escravizados.
Percebe-se a continuidade dessa mentalidade nas práticas cotidianas das/os empregadoras/es que não reconhecem o trabalho doméstico como outra atividade remunerada qualquer (com exceção da não-lucratividade), reproduzindo práticas deste período colonial Algumas/uns acreditam que esse serviço deve ser pago com “favores”, como dar as roupas usadas, por exemplo, ou que a não extensão de todos os direitos trabalhistas está relacionada à ausência de escolaridade (ensino formal), subestimando outras formas de produção de saber, inerentes a essa atividade.
Creuza Maria de Oliveira, Presidente da Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas (Fenatrad), no Seminário dos Trabalhadores Domésticos.Creuza Maria de Oliveira, Presidente da Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas (Fenatrad), no Seminário dos Trabalhadores Domésticos.
A vulnerabilidade não se refere tão somente às práticas cotidianas. O próprio Estado brasileiro compra esse discurso do “informalismo” (aqui utilizando-me de um eufemismo). Sob diversas alegações, transforma-se essa discriminação em texto legal, não estendendo às trabalhadoras domésticas todas as garantias trabalhistas. As justificativas passam pelo impacto econômico dessa extensão e pela possibilidade de diminuição do números de Carteiras de Trabalho assinadas, por exemplo.
Dessa forma, aumenta-se a vulnerabilidade das mulheres que exercem essa atividade. Tanto socialmente, no ambiente de trabalho, como legalmente, ao não ratificar a Convenção nº 189, que garante às domésticas os mesmos direitos que as/os demais trabalhadoras/es. É muita ousadia querer tratamento igualitário? E, mais uma vez, afinal, do que elas poderiam reclamar? Perguntam-se os novos senhores.
Diante desse quadro, duas coisas ficam bem explícitas. A primeira delas é que a situação das trabalhadoras domésticas deixa bem nítida as marcas do machismo e patriarcalismo brasileiro, que impõe ao corpo feminino o papel de “cuidado” do espaço doméstico, sem que isto represente uma atividade remunerada, já que a ela compete socialmente o zelo com o ambiente do lar. A segunda marca é o reconhecimento de que a precariedade e a vulnerabilidade social do trabalho doméstico são herança direta do sistema escravocrata e legado da mentalidade colonial, que ainda demonstra forte influência no pensar e no agir cotidianos e do Estado, ente que deveria garantir a equidade para todas/os.
Luana Natielle Basílio e Silva – Advogada, assessora do Cfemea e sócia colaboradora do Bamidelê