NEGRIARA
Sou como a natureza: forte como um furacão, suave como uma brisa.
Praticamente bipolar... ; Sou como uma Rosa: sensível, cheirosa, preciso
de cuidados, mas posso arrancar sangue.
É muito estranho quando me lembro que fui embora achando com toda
certeza do mundo que conseguiríamos fugir pra sempre. Naquele momento eu
não estava pensando em mais nada,somente em conseguir viver em paz. Nem
eu, nem o meu marido e nem as crianças estávamos mais aguentando viver
daquele jeito. Quando saímos do sitio, ficamos de cidade em cidade
rodando tentando fazer contato com alguém do Rio de Janeiro, para saber
se a policia já sabia da existência do sítio. Tivemos algumas
informações truncadas e sem muitos detalhes. Com isso decidimos voltar
ao sitio, pegar a nossa cadelinha pequena, deixar as outras duas que
eram grandes com um caseiro, e despachar a nossa mudança. Nessa hora
tivemos que acionar duas pessoas que simplesmente são como meus anjos da
guarda. Sabe aquelas pessoas que ficam longe, mas você sabe que pode
contar SEMPRE, sem pré requisitos.
"A minha tia Jussara que mora em São
Paulo, que além de confiança extrema, não estaria no RJ, na mira da
policia e a minha prima/irmã Bete que mora no Rio de Janeiro, mas em
Araruama, por isso também não estava sendo monitorada pela policia.
Porra, as duas se levantaram da cama no nosso primeiro sinal de pedido
de ajuda. Chegaram lá em menos de 5 horas pra nós ajudar a encaixotar
tudo."
Nessas alturas eu e ele não podíamos
contar mais com ninguém do da minha família. Os policiais estavam em
cima, tentando descobrir nosso paradeiro. Até em festas eles iam,
disfarçados de garçons, flanelinha etc . Vocês
sabem oque duas pessoas se levantarem de cama pra ajudar outra sem
pestanejar. Foram elas. Tinha que ser muito rápido tudo. Pior que estava
chovendo e o carro estava derrapando na subida do sítio. Sabe a lei de
Murphy... Foi uma correria e o carro escorregando na lama, o caminhão
que arrumamos não subia também. Aí botamos as coisas em cima do teto do
carro, compramos um guia de estradas 4 rodas, pegamos a cachorra e as
crianças e partimos pra Maceió. Fomos pela Fernão Dias que era
mais próxima de onde estávamos. Pior de tudo era esconder a Pinga quando
parávamos pra dormir. (kkkkkkkk) Em um hotel em Santa Rita de Cassia,
ainda em MG, passamos maior vergonha. Alias o Saulo passou porque eu vi
de longe e já dei meia volta pra não ficar de cara grande.
A gente tinha que entrar no hotel com a
cachorra escondida, porque lá não era permitido. Aí o Saulo teve a
ideia de colocar ela dentro de uma mala (kkkkkkkkk). Nisso que ele esta
indo na direção do saguão do hotel o funcionaio veio pra ajudar. Dali eu
já diminui o passo(kkkkkkkkkkkk). Aí o meu marido falou que não
precisava pra se livrar do cara, mas ele insistiu. Quando ele botou a
mão no carrinho e deu dois passos, a Pinga(Cachorra) conseguiu, sabe lá
Deus como, abrir o zíper da mala e botou a cabeça pra fora com a cara de
mais alegre do mundo. (kkkkkkkkkkkkk) Eu vi de longe, parei e fiquei de
lá rindo muito.
Aí o homem olhou indignado e falou: Senhor não é permitido animais aqui.
O
Saulo olhou pra ela, botou a mão na cintura e falou: Poxa Pinga! Você
estragou tudo! Estávamos quase conseguindo! (kkkkkkkkkkkkk)
Todo sem graça, deu meia volta pra ir embora. Aquilo fez a gente ir dando gargalhada até Maceió.
Foi
uma viagem tranquila. Parávamos só pra almoçar e depois por volta de 20
horas pra dormir. Assim fomos de uma vez só. As crianças até que foram
bem legais, foram pacientes, porém foram brigando pra segurar a cachorra
até lá. Eu tinha que ficar com um relógio marcando 15 minutos pra cada
um. Porra tinha hora que dava vontade de parar o carro e enfiar a
porrada em geral. Nem a coitada da Pinga estava mais aguentando aquele
estica e puxa.
Muitas horas eles
dormiam e ficava todo mundo em silencio no carro. Sabe quando eu acho
que cada um ficava fazendo uma reflexão do que estava acontecendo.
Eu
estava firme, certa que daria tudo certo, afinal fui eu que preparei
tudo em Maceió, pra nossa partida. Mas tinha algo que não saia do meu
coração. Eu olhava pro Saulo e as vezes me batia aquela depressão, como
se eu não reconhecesse mais ele, sei lá, uma coisa estranha. Tinha horas
que tocava musicas no carro, que me faziam lembrar de toda aquela briga
que não tinha sido esclarecida e eu olhava ele cantando, e parecia que
tinha um diabinho o tempo todo martelando na minha mente aquela historia
toda.
Ainda em Pouso Alegre, paramos pra tirar foto pro novos documentos e discutirmos qual seriam os novos nomes.
O fato mais
inusitado, além, de estar sentados num bar escolhendo nosso nome novo
foi a minha filha que chorou por horas porque queria porque queria que o
nome dela mudasse pra Fernanda Vasconcellos. E eu explicando que não
podia, que ela seria Dalila mesmo, e ela chorando e falando: Eu quero
que meu nome seja Fernanda Vasconcellos!
Imaginem
a cena... A gente ali a mesa do bar com um papel fazendo nossa arvore
genealogica falsa. Por isso que eu sempre falo que meus filhos tem uma
indole muito boa mesmo, por que com experiencias como essa na vida...
Dali seguimos viagem naquele clima de cada quilometro mais longe, mais
seguro estavamos. Foi cansativa a viagem, porém tranquila. Como levamos
um ipod, tinha muita musica pra cantar na viagem, mas uma que eu cantava
e tentava a cada centímetro percorrido, me desligar de tudo de ruim
que tinha acontecido. Essa aqui: Sonda-me, usa-me Senhor - Aline Barros
Eu só buscava força pra esquecer tudo que o meu marido tinha me feito.
Buscava força pra recomeçar do zero. Eu estava muito triste pela
minha família que eu tinha certeza que não os veria mais. Naquele
momento eu estava tão cheia de esperança, que não existia lugar pra mais
nenhum sentimento. Eu cantei muito na viagem e fui lembrado de tudo que
tinha passado na nossa vida até aquele momento. E voltando a ter um
contato com Deus nos meus pensamentos, pedindo muito a ele que
protegesse a gente e nos ajudasse a conseguir. No fundo, contudo que
aconteceu, acho que Deus esteve por perto, posteriormente, evitando um
tragedia. Mas isso eu vou contar mais pra frente...
A nossa mudança tambem estava indo em direção a Maceió e tinhamos que correr pra chegar lá junto com o caminhão que mandamos.
Minha mudança já rodou esse mundo. Quando saí do Rio de Janeiro, arrumei
um deposito em Taubaté, São Paulo, deixei lá por 2 meses pra despistar a
policia. Depois mandei pro sítio em Minas Gerais e agora estava
enviando pra Maceió, Alagoas.
Foi muita ingenuidade nossa achar que conseguiríamos. Mas enfim...
Foi uma viagem
tranquila com algumas curiosidades. Uma delas foi quando nós paramos
num posto de gasolina e fomos a lanchonete. Logico a gente
super agradável com todo mundo pra parecer super gente boa. Não tinha
quem não olhava pra gente por causa do sotaque de carioca. Um homem se
aproximou e pedia se a gente poderia levar uma encomenda até
a próxima cidade e entregar até um posto de gasolina.
Puta
que pariu! A gente no desespero de disfarçar e tentar passar
despercebido, fazíamos tudo pra agradar todo mundo. Aquela caixa
conseguiu tirar a nossa paz, porque depois que saímos dali, bateu um
medo daquilo ser droga (kkkkkkkkkkkk). Seria o cúmulo da falta de sorte a
policia parar a gente e achar uma caixa cheia de drogas né...
Sabe o que é ir um silencio no carro, um medo de encontrar a
Policia Rodoviária Federal. A gente só respirou aliviado depois que
entregamos a caixa no tal posto de gasolina.
Nossa como a estrada parecia não tinha fim. Na Bahia, aqueles eucaliptos
que não tinha mais fim. Teve um hotel popular que o meu marido botou o
pacote com nossos 100 mil em baixo do travesseiro, com medo de ser
assaltado. Na verdade aquele dia eu dormi com um olho aberto e outro
fechado. De manha rapamos fora rapidinho por medo.
Seguimos bem a viagem até chegar em Aracaju. Nos perdemos lá e fomos
parar num lugar que o acesso era uma ponte, cuja policia ficava bem no
meio fazendo Blits. Foi um terror. Meu coração nem batia direito. Na
verdade hoje vejo que era um medo desnecessário, mas na hora nosso
sotaque chamava muita atenção e despertava a curiosidade das pessoas em
saber porque estávamos deixando o Rio de Janeiro.
Nossa quando
nós vimos a blits montada na nossa frente o Saulo abriu todos a janelas
do carro deu grito pras crianças levantarem rápido. Sabe
aquela família de comercial de manteiga (kkkkk), até a cachorra ficou
com a língua pa fora fazendo gracinha pros policiais. Pior que nós
erramos o caminho e tivemos que passar por eles 2 vezes. Mas deu tudo
certo, passamos sem grades problemas.
Quando
chegamos a Maceió, senti um alivio imediato por chegarmos bem, e por
estar em casa. Nessas alturas, depois de tantas indas e vindas a
Alagoas, eu já me sentia realmente em casa. Quando chegamos lá, o
caminhão tinha acabado de chegar também. As crianças entraram a casa
numa alegria, foi muito bom. Parecia que tínhamos voltado lá em 2005,
quando tínhamos nos mudado pra Tijuca. Lá não conseguimos morar em paz
nem 24 horas. Dessa vez parecia que daria certo.
Foi engraçado que quando despachamos a mudança, meu marido deu um
dinheiro a mais pro homem do caminhão tratar as coisas com amor. Pois
é... O violão das crianças chegou lá partido em 3 pedaços...
Quando chegamos em Maceió, foi bom porque a policia civil estava em
greve e isso nos passava uma certa tranquilidade. Nosso medo ali não era
com bandidos e sim com a policia. Eu estranhei muito que em TODAS as
casas de Maceió tinha cercas elétricas. Eu não estava acostumada com
isso. Eu até na época que comprei a casa perguntei pro meu amigo taxista
Antonio, porque era assim. Pensei: Aí aí... Essas cercas não estão aí
atoa...
Realmente lá acorriam muitos assaltos a residencias e a comercio. Muito mesmo!
Depois que arrumamos tudo, partimos pra outra casa que ficava em
Maragogi. Aquela que eu falei, que era mais humilde, só que no paraíso.
Lembro que quando chegamos lá, atravessamos a rua e estávamos numa praia
praticamente deserta. Caminhamos pela praia, eu, o Saulo, as crianças e
a cachorra. Me lembro que ele estava muito emocionado e ficou falando o
tempo todo que parecia um sonho. O céu com muitas estrelas, aquela
calmaria, um paraíso mesmo.
Naquele momento estávamos com meio caminho andado. Já tínhamos uma casa
em Maceió, uma casa de vereio, um carro (Astra 1999) velho,
porém, confortável, nossa casa estava mobiliada, só faltava mesmo abrir a
nossa loja, pois minha mãe quando arrumou minha mudança, desmontou
minha loja de essências e material pra artesanato que tinha na Rocinha e
mandou junto.
Eu lembro que
na ultima vez que tinha estado em Maceió, ainda sozinha, deixei 7.000
reais no armário. Na época pensei: Ah sobrou esse dinheiro da compra da
casa, vou levar pro Rio de Janeiro pra que...
Nossa, foi uma emoção achar aquele dinheiro mofado no guarda roupa. Fizemos varias coisas na casa com essa graninha.
Passamos uns dias lá e depois retornamos pra Maceió pra então dar
continuidade a nossa vida. Quando chegamos lá começamos a procurar um
loja pra alugar. Rodamos o Jacintinho todo e não achamos. Lá parecia até
a Rocinha, lojinhas pra tudo que era lado, barracas de tudo que era
coisa, muita gente pra lá e pra cá, bairro popular mesmo.
Aí por sorte de Deus achamos uma loja próxima a nossa casa. Nós alugamos e sozinhos arrumamos a loja toda.
Todas ali
estavam vendo que a gente era uma família normal, que trabalhava,
cuidava dos filhos e tal. A unica coisa que ainda faltava era as
crianças numa escola. Tadinha da minha filha... Ela amava ir pra escola e
foi arrancada duas vezes em menos de 4 meses. A bichinha não tinha
documentos e eu não podia usar o verdadeiro. Esse, aliás, foi escondido e
esquecido. Ela pegava as paginas amarelas e ficava marcando tudo que
era curso pra eu matricular ela. Até curso de japonês ela estava
aceitando.
Nossa lojinha estava bem arrumadinha, a gente se revesava lá e assim estava tudo indo bem.
Se existe uma coisa que arregaça nossa casa é criança. Não tinha como
nos mantermos em discressão, pois eles queriam brincar, precisavam se
relacionar com outras crianças. Ai resolvemos comprar um Mini Bugre pra
eles. Eu até falei pro Saulo que se a gente não comprasse naquele
momento, nunca mais a gente poderia e também depois que eles crescessem
não teria mais valor. Pra falar a verdade a minha infância inteira
passei pintando a porra dos gibis e mandando pra concorrer a um mini
bugre. Logico fiquei só no sonho mesmo... Nunca ganhei nem um
certificado por participar dos concursos. Sacanagem isso gente! Sempre
quis um... Tadinha de mim.
Foi uma festa quando o reboque chegou. Eles passaram o dia na rua
andando e assim aglomerou logo de crianças e rapidinhos eles estavam já
enturmados como se fossem nascidos e criados ali.
Nessa eu incentivei o Saulo a operar a vista também. Ele tinha um
problema lá que fazia com que ele não enxergasse nada, se não estivesse
de óculos ou lente. Ele então tomou coragem e fez. Coitado sentiu muita
dor nos olhos e eu de "enfermeira" pigando um colírio que ele dizia que
ardia MUITO. Mas a recuperação foi boa .
Nesse momento
estavam felizes, tudo parecia estar se encaminhando. Mas o inimigo
estava pronto pra atacar e destruir tudo e ele sabia bem por onde
começar a trabalhar.
Derrepente o Saulo
começou a mudar e me parecer aquele que eu convivia no morro. Não sei
como explicar, mas eu sentia na áurea dele a mesma coisa que eu setia
quando ele estava no poder, no morro.
Sentir isso me reportava ao inferno, automaticamente. Ele agia com um
jeito que parecia que tinha o proposito de me enlouquecer de verdade.
Hora ele parecia me amar, parecia estar feliz e hora ele era frio, sem
amor. Toda a sensibilidade que eu havia ficado na Rocinha estava
voltando. Mas dessa vez eu estava sozinha mesmo, não tinha quem me
salvasse. As vezes eu me apegava à ideia que ele estava mais um vez
passando por um momento difícil, de mudanças, de medo, de duvidas, que
pra ele como homem daquela familia também era difícil e logo eu
compreendia ele. Ele teve que fazer contato com uma pessoa do morro por
causa dos documentos, alias, essa pessoa sabia exatamente
onde estávamos, e esse repassava as noticias sobre nossa família do Rio
de Janeiro pra gente.
Foi uma época
muito difícil pra mim, meu pai foi pra UTI e o médico desenganou
ele, minha mãe estava em pânico, pois a policia estava na porta dela
esperando qualquer contato e ela tinha pavor de alguém pegar meu
sobrinho de refém pra exigir que o Saulo se entregasse. A esposa do
irmão do Saulo havia sido expulsa de onde morava e o irmão dele foi
ameaçado de morte pelo Comando Vermelho a cadeia. Enfim, um caos
estava acontecendo no Rio de Janeiro. E a gente nada podia fazer. NADA!
Tinhas
que permanecer em silencio total pra não ser rastreado. Mas acredito eu
que ele aproveitou esse contato dele com a Rocinha e falou com mulheres
também pelo msn. Na verdade o que TODOS falam que eu fazia, quem fazia
era ele. Eu não falava com NINGUÉM pela internet. Meus filhos não
falavam com NINGUÉM pela internet, mas ele falava com muita gente do
morro pelo MSN. Ele ia pra lan house e nunca deixava eu ir junto. Isso
começou a geral brigas e mais brigas, por que eu já estava achando que
ele estava com alguma conversa que eu não poderia ver. Mas como ele
poderia ter segredo comigo? Eu e meus filhos ali nas mãos dele
em prol dele e ele agindo pelos cantos.
Ele começou a viajar, hora pra resolver questões de documentos e hora
pra fazer compras pra loja. Cada vez que ele ia pro aeroporto meu
coração nem batia direito de tanto medo. Eu não ficava tranquila
enquanto ele não voltava. Ele falou que tínhamos que investir nosso
ultimo dinheiro em mercadorias pra que não gastar com besteira. E eu
concordei com isso. Assim ele viajou umas 4 vezes. Mas em meio essas
viagem eu estava tão insegura, tão sensível como mulher, que eu comecei a
entrar numa depressão e no fundo eu estava sentindo que ele estava
mesmo voltando a incorporar o Robinho Pinga, desatento, impaciente etc.
Ele foi muito cruel comigo naquela época. Eu me levantava de madrugada
pra chorar por causa do meu pai, porque sabia que ele morreria e eu não
poderia vê-lo nunca mais. Ele se quer se mexia na cama pra me acolher.
Agia uma frieza sem tamanho. Eu sempre ali como um cão fiel, querendo
ele o tempo todo e ele chegou ao ponto de me falar que se incomodava com
o meu assedio, que ele não gostava que eu ficasse querendo ele. GENTE!
Pelo amor de Deus isso não é pra deixar qualquer um LOUCO. Ele falava
isso, e horas depois transava loucamente comigo. Depois passava dias sem
nem olhar pra minha cara com muita frieza. Cada vez que ele sumia pra
ir a lan house eu entrava num estado de depressão terrível. Meu orkut,
na época era controlado pelo meu sobrinho, mas muita gente pensava que
eu anda mexia nele. Eu olhava tudo na internet como um anonimo qualquer,
não podia de jeito nenhum ter qualquer ligação comigo ou com
onde estávamos. Meu filho chorava olhado os orkuts dos amigos, sem poder
fazer qualquer contato. Ele com essa coisa de ficar as escondidas
fazendo contato com o morro, desencadeou uma revolta nacional lá em
casa. Era injusto a gente ali, totalmente incomunicável e ele mesmo que
era o maior interessado de papinho gostoso pelo MSN e orkut.
Pra piorar
tudo, as mulheres que ele trepou no morro resolveram aproveitar a
nossa ausência pra fazer gracinhas no orkut, divulgar mesmo que eram
namoradas dele. INCLUSIVE aquela mesma que já vinha infernizando a nossa
vida.
Porraaaaaa quando eu vi isso! Veio
tudo a tona de novo. E ele me tratando com tanta frieza, como se eu
fosse uma escrava espiritual dele. E realmente eu estava exatamente
assim. Eu me rebaixando a todas as vontades dele como uma escrava. Ele
hora me rejeitava, hora me usava. Eu sofri muito nessa época, me sentia
abandonada até por Deus.
Até que um dia no meio de uma discussão eu botei ele na parede pra ele
tirar de vez aquela mágoa do meu coração, pra ele me falar se ele tinha
me traído mesmo. E foi aí que ele me destruiu como mulher numa só
palavra. Sim... Eu te trai!
Caralho...
Parecia que eu estava sendo rasgada por inteiro. Uma dor que foi maior
que qualquer sentimento aquele momento. Eu não conseguia me levantar do
lugar. Ele falou isso muito seguro, ele sabia que eu estava nas mãos
dele. Nossa, parecia que todo o oxigênio da Terra tinha acabado e eu o
meu coração estava sendo espremido. A visão que eu tinha era ele sentado
na minha frente me falando na maior tranquilidade que me traiu, sim,
com varias mulheres. Alem dele me jogar num buraco escuro ele ainda
jogou uns sacos de areia em cima quando me falou que queria que eu e as
crianças voltássemos pro Rio de Janeiro que ele iria seguir sozinho por
que o amor tinha acabado.
O amor dele tinha a-c-a-b-a-d-o.
Imaginem, eu fiquei do lado desse homem quando TODOS viraram as costas,
enfrentei bandido, repórter, policia, abandonei o lugar que eu nasci e
fui criada, enfrentei medo, solidão, inveja, cobiça, tristeza e me
mantive ali num único proposito, proteger ele. Coloquei meus filhos em
risco, destruí mais a infância das crianças, cometi crimes, estava sendo
perseguida pela policia que me enxergava como uma debochada e esse
homem me fala com a maior naturalidade assim mesmo: Eu quero que vocês
voltem pro Rio.
Porra foi como ganhar um tiro na cara de fogo amigo... Eu aos prantos
perguntando porque? Porque? E ele só me falava assim: Acabou o amor.
Eu pensei: Meu
Deus que castigo é esse? Como que eu vou voltar pro Rio com a policia
toda na sede de pega-lo? Eles vão me arrastar em praça publica quando eu
desembarcar e vão arrancar meu figado querendo saber onde ele esteve e
onde ele esta. Toda a ira da sociedade cairia sobre mim se eu voltasse
com meus filhos.
Eu só consegui ter uma
reação... Me levantei em silencio e fui ao banheiro tentar dar fim a
toda aquela dor que eu estava sentindo. Peguei uma caixa
de remédios tarja preta que tinha lá e engoli tudo. Mas ele desceu do
imenso pedestal que estava e percebeu que tinha algo errado e arrombou o
banheiro e já foi enfiando o dedo na minha garganta e fez eu vomitar
ate não aguentar mais.
Foi um dia terrível pra mim. Eu cheguei no meu limite, no famoso fundo do poço.
Ele com aquela alternância de comportamento, me trouxe do banheiro e
quis namorar comigo. GENTE por favor, me digam se eu que sou a louca
dessa historia. Ele quase me matou de tristeza e minutos depois fez amor
comigo. Aquilo parecia um plano diabólico pra me destruir, me
enlouquecer ou coisa parecida. Ele no meio daquela crise, simplesmente
fez uma tatuagem com meu nome no braço. Eu não entendia como ele podia
ser tão confuso nos pensamentos dele e aquilo me deixava mais pirada.
As crianças
coitadinhas, viram que estava acontecendo algo de errado. Meu filho me
viu de definhando de tristeza e me falou que até hoje eu me lembro: Mãe
vamos embora, ele não quer mais a gente!
A
minha filha começou a ir pra igreja e fez de tudo pra gente ir no
encontro de casais. Definitivamente tinha algo de muito ruim ali,
tentando acabar com a gente de verdade. Nos fomos na igreja e eu olhava
ele ali me beijando, mas sabe quando você sente que a pessoa parece
fingir. Eu não aguentei quando a pastora começou a falar sai correndo
aos prantos. Correndo mesmo!
Nessa época, em um dos dias de crise do Saulo, ele me levou a praia pra
mais uma vez me falar que não me amava mais. E quando voltamos pra casa,
infelizmente a cachorra do meu filho ficou pro lado de fora do portão.
Foi outra perda irreparável. Perdemos a luna... Até hoje eu não aceito
isso. Nós botamos fotos, telefone, as pessoas ligavam falado que tinham
achado, as crianças festejavam, mas na hora não era ela. Era uma
tristeza sem fim quando voltávamos pra casa sem ela. Tadinho do Celso,
chorava muito quando iamos, muitas vezes dentro de favelas e chagava lá
era trote, ou não era ela que estava la.
Eu fiquei alguns dias totalmente doente. Não conseguia me levantar pra nada, fui parar em hospital etc.
Ele começou a cuidar de mim, me dava comida na boca e tudo e aos poucos
foi diminuindo a intensidade da dor. Ele me levou
num show do Sorriso
Maroto, que aconteceu lá. Foi bom pra dar uma injeção de animo. Mas olha
por incrível que pareça, eles chegaram lá com uma musica que parecia
que tinha sido feita pra mim.
Quando eu
consegui entender o que eles estavam cantando, meu astral mudou na hora.
Eu continuei sorrindo, porém sangrando por dentro. Parecia ele cantado
pra mim aquilo, por que o meu marido estava em suaves prestações me
perdendo mesmo. Mas apesar de eu achar que Deus não estava mais por ali,
ele estava sim. E mais forte que nunca porque só ele conseguiu evitar o
pior.
Letra:
Choro toda vez
Que entro em nosso quarto toda vez
Que olho no espelho toda vez
Que vejo o seu retrato
Eu não tô legal
Não vai ser fácil de recuperar
A vontade de viver
Tô sem astral
por falta de você
Pior que nada que eu faça
Vai mudar sua decisão, de separação
Eu reconheço os seus motivos
Ta coberta de razão
Pra você, caso de traição não tem perdão
Sei que é tarde pra me arrepender
Inconsequente, fraco
Eu traí você
Sabemos bem quem vai sofrer
Hoje só Deus sabe a minha dor
Eu tive que perder pra dar valor
Não serei o mesmo sem o teu amor!
Apesar de estar muito sensível, o pior já havia passado e tudo muito
lentamente começou a voltar ao normal. Nós ainda dentro de tudo,
ainda tentávamos levar a vida. Apesar das crianças estarem no meio dessa
historia toda, ainda guardavam uma ingenuidade e isso fazia com que
algumas horas esquecêssemos de tudo que estávamos passando.
Ele sempre se comunicava com a pessoa que era a ponte entre a gente e as
informações sobre as nossas famílias. Quando recebemos a noticia que o
medico do meu pai havia liberado ele pra passar o natal e ano novo em
casa porque o fim dele estaria próximo. Pronto, eu fiquei arrasada com
aquilo, mas voltar nem pensar.
Foi quando
decidimos fazer um vídeo pra mandar pra nossas famílias, pois todos
estavam muito tristes sem noticias nossas. Ele até que disfarçou bem que
estava tudo mil maravilhas, mas eu, nessas alturas, parecia berrar por
dentro e por fora, por ajuda.
Foi pouco o
tempo que tivemos daí pra frente. Ele sempre agia daquela forma que me
fazia mal cada vez mais. Tudo de ruim vinha a tona quando ele me tratava
daquele jeito. Eu me sentia feia, me sentia menos que qualquer mulher
do planeta. As vezes eu ia pra loja e ficava la sozinha, chorando.
Um dia meu filho virou pra mim e falou assim: Mãe, se quando eu estiver
na 8ª serie, descobrirem meu nome verdadeiro. Eu terei que voltar pra 4ª
serie? E o dia que eu tiver um filho, ele também vai ter nome falso?
Caralho! Foi como um tiro. Eu não sabia o que responder pra ele.
Eu fiquei com aquilo na mente e cada vez que o meu marido agia de forma
estranha, como se quisesse se livrar da gente, aquilo vinha na minha
mente. Uma coisa muito ruim foi tomando o meu coração e eu já comecei a
enlouquecer de verdade. Comecei a ver um caixão quando olhava pro meu
marido. Eu fui tomada por uma coisa que realmente era alimentada do
sentimento ruim que ele me fez sentir. Eu comecei a pesquisar como matar
ele. Eu já estava conseguindo disfarçar, simular sorrisos, uma
coisa diabólica mesmo. Ai cheguei a conclusão que veneno
seria terrível por que ele sofreria muito de dor e não morreria rápido.
Aí pensei assim: Ahh porra! Eu estou em Maceió, lugar mais fácil de achar um matador do planeta.
Ai comecei a montar tudo na minha cabeça, onde ele morreria, e como eu
teria que fazer porque afinal ele estava com um documento falso. Cade
vez que ele sumia pra ir a lan house e me tratava com frieza eu sentia
uma coisa muito ruim.
Cada vez que ele falava
que queria que a gente fosse embora pro Rio de Janeiro o diabo soltava
fogos. Agora ele tinha desabrochado tudo de ruim que existia. Minha
vontade era chegar no Rio de Janeiro e jogar o caixão e falar: Aí o que
vocês estão procurando! Acabou! Mas aí Deus começou a trabalhar com 220
volts mesmo. Deus confundiu a minha cabeça e atrasou meus planos, porque
quando eu ia procurar alguém pra fazer o serviço, me veio as crianças
na cabeça. Não saia da minha mente eles ajoelhados lá em Minas orando
pro pai chegar com vida. E ali eu cai de novo numa tristeza por que já
não tinha certeza se eu suportaria ve-lo morto. Se eu suportaria, ver as
crianças olhando ele caído no chão com um tiro na cabeça. Todos esses
pensamentos me confundiram e retardaram meus planos. Ele queria me
mandar, queria ir comprar passagem, ai decidimos então passar o ultimo
final de semana em Maragogi pra uma especie de despedida. Seria o tempo
que eu precisava pra ter certeza que eu conseguiria viver sem ele.
Parecia mesmo que tudo estava a favor do desgraçado. O pneu do carro
furou, a gente mal tinha dinheiro, mas mesmo assim fomos. E foi um final
de semana maravilhoso. Eu esqueci completamente de tudo de ruim que
estava na minha cabeça. INCRÍVEL o poder do amor, gente. Pois naquele
final de semana ele agiu como o homem que eu tinha me casado em 1995 e
fez todo amor voltar com mais força pra lutar por ele. Puta que pariu,
era Deus mesmo, me preparando pra mais uma burduada. Nós passeamos nas
piscinas naturais, de madrugada fugimos das crianças com uma garrafa de
vinho e fomos namorar na praia. Ali ele posteriormente falou que havia
desistido de me mandar embora e eu desistido de mata-lo. Estava selada a
paz. O amor que eu sentia por ele e o que ele dizia sentir por mim
voltou, não atoa, mas sim pra dar suporte pra tudo que estaria por um
fio de cabelo pra acontecer e nem eu nem ele imaginávamos. Mas como ele
mesmo disse 1 dia do vendaval na nossa vida: "Bibi aconteça o que
acontecer, eu sempre vou te amar." Parecia que eles estava
pressentindo também.
Alias, por incrível que pareça no sábado a tarde, estávamos na praia, eu
ele e o caseiro do condomínio, quando um homem chegou do nada e parou
olhando o mar. Eu olhei pra ele e ele me olhou bem nos olhos. Eu senti
que ele era do Rio de Janeiro. Não sei porque, mas eu senti. Em questões
de segundos ele sumiu. Aí nem dei importância.
A noite acabou
nesse clima de amor. Assim que acordamos e tomamos café, não passou 1
hora, um homem chamou ele na porta da casa e em segundos, nosso sonho
estava chegando ao fim... Era a Policia Civil do Rio de Janeiro.
Eu
estava deitada no sofá e levei um susto tão grande porque eles já
entraram com ele algemado e botaram ele setado no chão. Eu dei um pulo
do sofá e as crianças começaram a chorar sem parar, tentando chegar
perto dele. Até o delegado ficou com pena e tirou a algema e mandou ele
acalmar o Celso e a Dalila. Eu não conseguia parar de chorar desolada...
Eles ligaram na hora pro Rio comemorando... É muito ruim estar sofrendo
enquanto alguém comemora, mas quem se envolve no crime tem que estar
preparado pra isso, e nós perdemos tanto tempo com brigas internas que
esquecemos que nossos inimigos eram outros. Demoramos demais pra agir e o
registro da casa estava no meu CPF. Lembram quando eu falei que havia
comprado em 2006 e não tinha ninguém pra botar no nome. Nós iriamos
exatamente naquela semana passar pro nome falso dele, mas não deu tempo.
Na hora de ir embora, foi muito ruim ver ele naquele carro já algemado,
indo, saindo de perto de mim. Agora eu já não poderia mais fazer nada
pra protege-lo.
A ultima coisa que ele me falou entre os beijos que eles permitiram que
ele me desse foi: Bibi, vai em casa, pega as coisas e vai pro Rio de
Janeiro agora.
O delegado me orientou a não ir pro aeroporto de Recife, pois tinha
muita imprensa lá. Eu obedeci e sai por maceió mesmo. E pior, eu ainda
tinha uma missão, não deixar eles saberem que a minha casa era em
Maceió. Eles acharam que era na Paraíba. Eu fiquei com muito medo da
policia descobrir, pois tudo lá era no nome falso.
Quando eles
viraram a esquina, eu me desculpei com o caseiro, por ter mentido pra
ele tanto tempo, e ele, Everaldo, morador de São Bento, foi simplesmente
piedoso comigo e falou que eu não me preocupasse que ele não estava com
raiva não.
Olhei aquela casa, vi ali meus
sonhos todos serem levados como uma onda que vem e leva tudo pro mar.
Peguei as crianças e parti pra uma viagem de 2 horas de carro. Corri
muito pois queria sair antes que passasse na Televisão. Quando entrei em
casa entrei no meu antigo MSN e pedi que um grande amigo/ irmão, o
Mirim. Esse meu amigo morava lá na Vila dos Pinheiros e na hora só
pensei nele mesmo. Pedi que ele fosse correndo pra Rocinha e pedir pro
Nem mandar um advogado pro aeroporto que o Saulo tinha acabado de ser
preso.
Aí ele falou que não tinha dinheiro pra ir rápido, eu falei: Pega um
moto táxi e chega lá pede pra algum bandido pragar, Mas vai AGORA!
Daí quando vi a cara do Saulo já estava nos sites do Nordeste. Foi um
corre corre. Eu tinha muito medo da policia de Alagoas. Corri muito pra
sair logo de casa.
Mas tinha um problema, nós não tínhamos dinheiro e eu não poderia deixar
o carro jogado no aeroporto.Aí as crianças lembraram que tinha 50 reais
no cofre de porquinho. Mandei eles pegarem o que mais gostavam
e saímos vuando pro aeroporto. Mais uma vez eu tive que abandonar minhas
coisas. Eu sempre me despedia de tudo porque sabia que muita delas eu
jamais reaveria. Mas o dinheiro que tinha na conta era exatamente o
valor de 3 passagens. Eu não tinha mais nada. Tivemos que esperar mais
de 8 horas no aeroporto, com sede e fome. As crianças chorando querendo
comer, e eu tendo que me manter calma, acalmando eles, que já já iriamos
comer no avião.
Assim me
despedi de Maceió e deixei todo o meu sonho pra trás. Ao sobrevoar o Rio
de Janeiro, eu não conseguia sentir emoção de nada. Estava destroçada.
Meu
primo Beto, que eu tenho verdadeira paixão, que foi no aeroporto me
buscar. Ele sempre esteve firme ao meu lado. Desde o primeiro dia que o
Saulo havia sido preso em 2005.
Ele que me ajudou com a minha mudança na Tijuca, ele que me acompanhava
na Rocinha no inicio que eu tinha medo, ele que me fez companhia, alias
ele e a esposa dele, a Renata, que é como um irmã pra mim.
Pois é lá
estava eu de volta desembarcando no Rio de Janeiro, com uma muda de
roupa e um coração ferido no peito. Lá estava eu ali respirando fundo
novamente, pra encarar a longa jornada que estava por vir. Eu totalmente
sem definição de nada na vida só sabia que eu tinha novamente, dois
filhos e um marido preso pra cuidar...
Material retirado do blog:
http://bibi-perigosa.blogspot.com.br/2012/05/trafico-de-drogasilusoes-e-realidades_19.html
Apenas para fins de pesquisa, não cabe aqui qualquer tipo de julgamento ou preferência.